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Devaneios

Eu não me lembro de nada. Olho para uma foto de família. Forço a cabeça, mas não faço a mínima ideia de quem são ou de quem foram cada um deles. É uma fotografia antiga, preto e branco, desbotada, com bordas picotadas e com o rosto manchado de alguém. Provavelmente uma mulher, pois veste saias. Tem duas crianças, ambas sentadas nos pés de alguém e esse alguém parece ser magro e usa calças curtas, pois eu consigo ver as canelas esfoladas, e o pano já gasto do tecido tanto usado.
Vejo também uma senhorinha sentada na ponta, numa cadeira de pernas tortas. Seus cabelos são brancos, seu olhar perdido, ela não sorri, parece pouco a vontade. Dá para notar uma mão cutucando seu ombro, dá para ver um olhar desconfiado, sorrateiro e é fácil perceber um sorriso de dentes faltando na boca de alguém.
Estes são os meus familiares? Qual desses será meu pai? Tenho irmãos, irmãs? Aliás, eu tive família algum dia? Não sei não me lembro. Moro sozinha. Numa casa pequena, dois cômodos. Foi o que sobrou da herança do meu falecido marido, desse eu me recordo, meu primeiro e único amor. Filhos? Não me recordo de nenhum, e nem quero. Aos poucos a cabeça faz o favor de me tirá-los do pensamento. Malditos!
Guardo a foto em uma caixinha de madeira. Lá tem uma boneca, uma inigualável lembrança de infância. Ela é de pano. Um dos braços tem um rasgo pequeno, mal dá pra reparar. Tiro ela da caixa, seguro como se fosse um bebê, bem forte em meus braços.
Já é noite. Coloco a caixa com as recordações debaixo da cama. Deito e olho o vento balançando as cortinas, abraço a boneca com mais força. É hora de dormir e sonhar e quem sabe amanhã eu lembro quem sou eu.
FIM….
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Atualizado em: Seg 10 Fev 2020

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