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73 Anos de Dolorosos Dias

Me sento na cama e vejo o sol entranto pela janela do meu quarto.Em algum lugar lá fora tem um cachorro latindo e pássaros cantando.Abro as cortinas e vejo a rua calma,poucas pessoas na rua,uma brisa gostosa balança os cabelos de uma garotinha,folhas caem das árvores,tudo tão sereno.Ultimamente tem sido assim,calmo demais.Minha vida costumava ser mais agitada.Mas as coisas mudam.Já estou viuva há alguns anos,meus filhos cresceram e tomaram rumo na vida,vejo meus netos nos finais de semana e estou aposentada.Quando eu era mais jovem não via a hora de tudo isso acontecer,a paz,descanso talvez...Mas não é isso que eu quero.Tantos anos de vida e eu continuo indecisa.Amo ponderar sobre a estúpidez que compartilho com outros da raça humana.Pensar em cada erro,cada palavra.
  Ainda me lembro das tardes de domingo que eu e meu marido viámos as crianças correrem pelo quintal.Na minha adolescência,muita bebedeira.Era uma época em que eu acreditava que ia ser livre,totalmente livre,mas me prendi nos mais lindos olhos castanhos.Nunca pensei que ia me apaixonar tão cedo.Ele foi meu parceiro de bebedeira,de risadas,de lágrimas,de gritos,ele era meu companheiro de todas as minhas aventuras.Se passaram alguns anos e eu me apaixonei novamente.Me apaixonei por um pedaço de mim,tão pequeno,indefeso.Eu me prendi de novo nos olhos castanhos.Dois anos depois eu produzi uma cópia minha,me apaixonei de novo.Por décadas a minha vida foi assim,me apaixonando diariamente pelas razôes do meu coração bater,meu marido e meus dois filhos.
  Vou até ao quadro na parede e dou bom dia a minha primeira paixão.Há dois anos atrás eu me apaixonei novamente,mas não era meu,era do meu filho,minha segunda paixão.Acho que não tem alegria maior que ver eles terem a mesma felicidade que tive na minha vida.Há quatro anos atrás eu comprei uma briga contra o câncer,e eu perdi meu marido,o primeiro e único.Acho que não é uma coisa que o ser humano possa se acostumar,é um sentimento frequente na minha vida,a única coisa que vou levar ao túmulo.Há um ano eu perdi a minha réplica em um acidente de carro.Nunca provei de um sentimento tão...difícil.Quando perdi meu marido senti que quando nos despedimos de alguém podemos nos despedir de todo mundo no final.E com minha filha não foi diferente,eu perdi ela também.Mas a vida é uma sucessão de despedidas.
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Atualizado em: Qui 23 Abr 2020

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