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O Sítio

O céu no campo era estonteante. As estrelas pareciam suplicar-lhe atenção. Na cidade, Pedro esquecia-se de olhar para cima, mas ali, era como se toda a natureza se curvasse à noite. Relevos mamelonares pareciam levemente inclinados para o infinito, rezando para qualquer astro que pudesse ouvi-los. Parou o carro para abrir a porteira. A madeira rangeu e protestou por seu sono interrompido, mas se arreganhou sem esforço. Pedro sentou-se no pilar que sustentava a porteira e contemplou mais uma vez a escuridão celestial. Cada pontinho piscando em seu próprio tempo, respeitando a luz das outras gigantes que queimavam no corpo celeste. Um súbito arrepio percorreu seu corpo. Apesar do espanto, era o mesmo céu que estivera ali durante toda sua infância. Voltou para o carro, fechou a porteira e adentrou ao sítio.
 A estrada de terra estava lamacenta. Era possível ouvir o sapos e cigarras travando uma batalha musical. A coruja piava em alerta na floresta que margeava a estrada. Uma pequena raposa passou correndo pelo farol e, no susto, pedro buzinou, e um grupo de pássaros  xingou-o em resposta. Não é muito diferente de São Paulo - pensou. A vida por ali fervilhava e mantinha intensas relações sociais pela madrugada. Não precisou dirigir muito para ver o primeiro brilho das luzes na casa. Na varanda, um lampião queimava devagarinho e uma velha cadeira de madeira esperava sua chegada.
Desceu do carro pisando levemente no solo. Um sorriso percorreu seu rosto por um longo tempo. Bateu palmas e gritou pela avó, mas apenas os grilos responderam. Deu batidas ritmadas na porta para anunciar sua presença, mas mesmo assim não obteve resposta. Forçou o trinco e viu que estava aberta, chamou por mais uma vez e ficou inquieto. Estranho não haver ninguém em casa. Sabiam que ele vinha. Na cozinha, um bolo de fubá o esperava. Relaxou de imediato. Talvez eles estivessem ido à cidade. Talvez estavam na lagoa contando historias. Não sabia realmente, mas cansado como estava, sentou no sofá com um pedaço de bolo e desabou.
Sonhos pueris dançavam em sua cabeça, lembrando-lhe como corria entre as árvores com seu estilingue em mãos. Podia ouvir o crepitar de antigas fogueiras e o restolhar das folhas a sua volta. Um trovão abrupto acordou-o de rompante. Pulou do sofá assustado. Lá fora, a água atingia a terra com violência considerável, forçando as árvores dançarem um ritmo ao qual não foram selecionadas. Pedro riu-se ao imagina-las carnavalescas, rebolando atrás do trio elétrico Tempo. Janelas abriram-se com a força do vento, refrescando a casa com uma corrente úmida de ar. Pedro fechou-as, levando uma borrifada de água no rosto. A água fria o fez estremecer, desejando o saboroso café preto matinal que a Tia fazia todos os dias. Voltou para o sofá e dormiu.
Quando acordou, o sol já invadira a sala. Lá fora, galhos quebrados e folhas tapeteavam o chão de barro. Deu uma longa espreguiçada e seguiu para a cozinha, esperando sentir o cheiro de café. Encontrou apenas o bolo do dia anterior e moscas em um ritual, rezando para que a redezinha que protegia o bolo sumisse. Aquilo, de certa forma, aborreceu Pedro. Estava angustiado por não encontrar a família em casa. Afugentou os insetos e foi direto para o banheiro. Decidiu tomar um banho e ir procura-la. No banheiro, uma toalha azul marinho, com Pedrinho bordada em azul claro estava pendurada. Outro sorriso dançou em seus lábios. Enxugou-se e foi para seus antigos aposentos, gastando algum tempo hipnotizado com sua infância. Em cima de sua escrivaninha estava uma pequena carta: Pedrinho, vamos ao armazém buscar queijo, café e limpadores de cachimbo. Haha. Voltaremos amanhã a noite, nos atrasamos e aqui tem chovido forte todos os dias, não queremos um acidente. Além disso, sua prima chega pela tarde, vamos busca-la na rodoviária. Beijos, Vovó. - Seus ombros relaxaram, um arrepio de êxtase o abraçou. A ansiedade dilatou sua traqueia e correu para sua mala. Vestiu uma camiseta ocre, sem detalhes. Colocou a mesma calça e tênis, com a sola levemente enlameada. Um pedaço de bolo na mão e foi para o carro.
Não queria mais esperar. Não aguentava mais esperar. Queria ir a cidade imediatamente. Encontrar sua avó, com seus cabelos curtos, brancos como leite, olhos tranquilos e reconfortantes, que se repousavam atrás de um óculos com cordinhas, daqueles do século passado. Queria abraça-la novamente. Apertar sua pele enrugadinha, e dizê-la como a amava. Para ele, ela sempre fora seu refugio. Não a via há anos, desde que entrará na faculdade o sítio tinha ficado inacessível. Sempre com provas e trabalhos, estágios e... O tio! Que saudade do tio! Sempre despreocupado, balançando em sua cadeira, tragando seu cachimbo e contando histórias mágicas, enquanto coçava a barba negra desgrenhada. Alias, o sítio sempre fora um lugar mágico. Um microcosmos próprio, encravado no meio de São Paulo. Ali, o tempo não se alinhara ao espaço e nem o espaço se curvara à gravidade. Quem poderia, na capital, acreditar em metade das histórias de Pedro? Quem acreditaria em uma prosa de seu tio?
- Os loucos - dissera sua "priminha"
- Que loucos? - respondeu Pedro
- Só os loucos vivem na cidade. - completou - Não dê ouvidos a eles, Pedrinho. Ou dê. Não me importo - e cruzou os braços.
A lembrança vinha cavalgante. Voltava aos poucos, em um ritmo tranquilo, amassando seu peito em um galope delicado. Quando Pedro dissera que só voltaria em um ou dois anos, ela fez birra por uma semana inteira. Só um vestidinho novo a fez sorrir novamente. Era multicolorido. Laranja, verde e azul. Alguns amarelos contornavam o tecido. Pedro perguntou a si mesmo como ela estaria agora. Crescida, com certeza - pensou.
Quando entrou no carro, sentiu as esporas baterem em seus ouvidos. A voz de seu nobre amigo era vívida em sua mente. Suas palavras ecoavam: "Pedro, na cidade, essas pessoas ouvem buzinas e sons horrendos todos os dias. Não há espaço para imaginação na cabeça de ninguém. Guarde nossas histórias para você, meu querido. Ninguém acreditaria que um homem caberia em uma garrafa." - E assim Pedro o fez. Seguiu os concelhos do sábio amigo até quase se esquecer do que tinha vivido ali.
Deu partida no carro. A estrada ainda estava bastante úmida. A floresta, calma, como quem acorda devagarinho. Os céus, limpos de um jeito que Pedro poderia jurar que a chuva não chegaria novamente. Conforme dirigia, contava quantas espécies diferentes de aves dançavam por ali. Não podia ouvir qual melodia seguiam, mas um som lhe era sempre familiar. Não importa quanto tempo passasse longe, reconheceria a qualquer hora o característico estridulo seguido de um onomatopaico tec tec na madeira. Andou quase metade do caminho quando o carro atolou. Forçou o pedal, mas mesmo assim não saia do lugar. Desceu xingando, amaldiçoando a lama e a chuva. Pegou o celular, mas não tinha sinal. Claro que não teria. As vezes, o sitio se recusava a avançar no tempo. As vezes, o tempo se recusava a sair do sitio. Pedro não sabia se continuava a pé ou voltava para a casa. A fome começava a chamar em seu estômago e, sozinho, não conseguiria tirar o carro dali. Então, Pedro decidiu voltar a pé para casa.
O sol estava agradável. Pedro ainda não havia realmente reparado no céu. Era azul capri no centro, escorregando para frequências menores no horizonte. Em São Paulo, o céu nunca tinha uma cor verdadeira. Estava sempre vestido em tons de cinza e negro, com algumas breves respiradas em laranja e rosa. Pedro estudava Direito e estava quase no último ano. Gastara dois anos fora do país, fazendo intercâmbio na Europa. Não se fixou em nenhum pais. Viajou por vários. Nesse momento mesmo, carregava em seu bolso uma carteira que trouxera da Suécia e um isqueiro turco, da época que tentou visitar a África, mas fora impedido de deixar a Europa. As fronteiras estavam fechadas porque uma onda de pessoas desesperadas fugindo da guerra buscava refúgio. Pedro ficara irritado. Não por ter sido impedido, mas seu pensamento politico não concordava com aquilo.
Quando chegou a casa o sol estava alto, mas ainda sim confortável. A casa era de madeira, grande como se é casa de uma avó com vários hospedes. Quatro degraus para alcançar a varada, onde a cadeira ainda o esperava. A porta principal outrora fora brancas, mas hoje estava amarelada e  uma fina camada marrom de barro espirrado repousava nela. Duas pequenas salas se abriam, uma de estar, com 2 sofás e outra que ligava à cozinha. Dessa mesma sala saia um corredor que dava acesso aos quartos. Eram 5, no total e, no fim desse corredor, um tapete cobria a entrada de um alçapão, que fora construído por Visconde, anos depois da casa já estar pronta. No subterrâneo esta uma belíssima biblioteca. Pedro havia crescido lendo vários daqueles livros. Decidiu descer lá novamente. Na sua infância, boa parte dos escritos não faziam sentido para ele, mas agora, vários exemplares já tinham sido devorados durante a faculdade. Desceu as escadas e ligou um interruptor, iluminando o lugar com uma luz que não se permitia incomodar os olhos. Nada ali tinha a indecência de ousar ser mais ou menos que agradável. Cada item pensadamente posicionado. Apesar de ser apenas um cômodo quadrado, cada canto era revestido por estantes forradas de livros e pastas. No lado oposto ao da escada, um grande mesa estava cheia de papeis esparramados, o que Pedro achou estranho. Não era do feitio de Visconde deixar qualquer coisa que fosse desarrumada. Colocou o celular para carregar em uma tomada próxima e logo foi distraído com dois blocos de folhas. Em uma delas, estavam escritos de Rousseau, em francês, e, na outra, ao que parece, Visconde tinha começado a traduzir para o alemão.
Pedro foi passeando pela sala. Uma placa de barro que imitava seu conhecido Código de Hamurabi estava como se fosse um quadro. Um pouco mais para o lado, histórias do próprio Visconde, mas nunca terminadas, somavam-se infinitamente em pastas multicoloridas. Continuou e encontrou, talvez, a obra completada de Machado e milhares de neologismos de Guimarães, além de um estudo completo de teorias e teorias sobre suas maravilhosas estórias. Quando retornou a mesa, seu estomago berrava de fome. Pensou em subir e acabar com aquele bolo, mas ainda estava incomodado com as folhas desorganizadas. Resolveu verificar. Ao lado delas, uma caneta bico de pena fora usada, e sua caixinhas estava ainda aberta. Pedro guardou-a e fechou a caixinha. Ela era de madeira, com ML esculpido e pintado em cor áurea. As letras tinham formas harmoniosas, cada curva se fechando perfeitamente. Um verdadeiro trabalho feito a mão, quase parnasiano. Pedro riu-se vigorosamente daquilo. Visconde dizia com orgulho o tanto que havia gozado em prazer quando Ronald declamou "Os Sapos".
As folhas pareciam paginas de um diário. Com certeza era um diário. Pedro organizou-as pela datas, se perdendo em passagens confusas a cada vez que acidentalmente lia um trecho. As frases pareciam terem sido escritas as pressas. A letra impecável e inconfundível de Visconde estava tremida. Pedro pôs-se a ler, um pouco atormentado. Algumas partes pareciam desconexas. Seu celular começou vibrar. Era o alarme das 15h. Pedro achou estranho e perguntou a si mesmo quanto tempo havia passado ali. Jurava não ter levado mais de meia hora, mas seu relógio o provara que estava errado. Alias, muito errado. Não era apenas a hora que estava errada. Ele estava dois dias atrasado. O susto percorreu seu corpo como como um soco no estômago, que enraíza a dor pelas vísceras e explode antes que sair do esôfago. Estava perdido. Um pouco zonzo. Pedro sentia como se de alguma forma pudesse ter perdido dois dias de sua vida, mas confiava na exatidão da tecnologia. Nunca fora muito ligado em datas, e se acalmou ao lembrar que estava de férias e raramente prestava atenção no número de cada dia. Ainda um pouco baqueado, continuou a ler os escritos de Visconde. Na primeira folha estava:
Dia três. As tempestades chegaram mais cedo esse ano, com o dobro do volume esperado para o mesmo período.
Reparos no telhado precisam ser feitos e é importante pensar sobre as provisões na dispensa. - Pedro pegou a próxima folha e continuou lendo.
Dia quatro - Uma nova tempestade se formou na noite anterior. Ventos fortes e trovões são frequentes. A janela da cozinha necessita ser reparada. Não sei como uma manga pode ter vindo parar ali, mas tenho alguma desconfiança.
Dia cinco  - Fui a cidade buscar provisões para o próximos dias. A chuva não parece recuar e logo nem uma carroça deve passar fácil pelas estradas que trazem ao sitio. Com exceção à que tem o caminho mais longo, saindo da Dutra.
Dia seis, 20:07h - Emília não foi vista desde a noite anterior. Já chove há duas horas. Barnabé continua lá fora atrás dela, embuçado na floresta escura.
Dia nove - Emília ainda não retornou. Procuramos ao sul do sítio enquanto a luz do dia permitia. Dividi a buscas em setores. Estou cansado e mentalmente exausto. Todos estão. Dona Benta não dorme há dois dias. A policia tem nos ajudado nas buscas, mas o falta de registro de seus nascimento no cartório fizeram vários os agentes desistirem. Temo que acordemos sozinhos amanhã.
Dia dez - Sou declaradamente louco. Briguei com o prefeito e o delegado. Não torno a cidade novamente! Hoje completa a sexta noite sem pausas nas tempestades. Pedro deve chegar nos próximos dias. Ele há de nos ajudar. Sei que encontrá-la-emos.
Dia 12 - Dedico meus momentos mais lúcidos a essas frágeis páginas. Estou sozinho na casa. Dona Benta saiu ontem para a cidade, no intuito de receber Lúcia. A pobre ainda não sabe de sua boneca. Não posso imaginar o choque. Deste modo, não posso permanecer parado. Todos os setores foram cobertos. Muitas arvores foram marcadas. Fiz um mapa detalhado de nossa busca. Deixei indicações por tod.. - a linha estava completamente borrada nesse trecho. Pedro deu um longo suspiro e percebera que havia prendido a respiração por tempo demais. As palavras dançavam em seus olhos. Conseguira compreender o texto, que, logicamente, fazia todo o mais terrível sentido.
Dia 13 - Pedro, sei que encontrara essas anotações. Vá embora. Não fique aqui. Quindim não retornou das buscar. Temo que Rabicó não está mais são. A depressão o arrebatou, meu jovem. O levarei para a cidade. Não pegue a estrada convencional. Faça o caminho mais longo. Volte por onde veio. Estamos perdidos, criança.
Dia 14 - Saio as 10:43h. Pedro, se infortunamente entrar nessa sala, quero que saiba que estou tentando lhe contatar. Achei a garrafa quebrada. Você sabe o que isso significa pedro. Você sabe que precisa, imediatamente, enc... - E assim pedro deixou as folhas irem ao chão. Não soube por quanto tempo ficara paralisado. O ar preso nos pulmões. O clima parecia, agora, constipado. O amargor terrível retorcia sua face. Teve que ajoelhar, apoiando uma mão na mesa enquanto tentava desesperadamente não desabar. Lá em cima, uma janela se arreganhou e fez portas baterem com uma violência terrível. O barulho despertou Pedro de seu pseudo-transe, e ele correu escada a cima, imediatamente indo para fora da casa.
O crepúsculo roxo alaranjado já forrava a terra. Parou e encarou a floresta, que se estendia à sua frente. Folhas farfalhavam no chão, sendo arrastadas pelo vento forte da tempestade que se formava. As arvores se agitavam vigorosamente, e as nuvens, cinzas, começavam se aproximar. Telhas começaram a voar da casa e, repentinamente, as janelas se estouraram. Vidros voaram de dentro para fora. Uma revoada de canários tentava fugir, sendo cruelmente puxada pelo vento. Por cima deles, um redemoinho imenso começava tomar forma. Nesse instante, o crepitar de chamas alertou seus ouvidos. Sentiu seus pelos se eriçarem e, quando o azurro fantasmagórico o alcançou, disparou rumo a floresta, sem olhar uma vez para trás.
Corria entre arvores, tentado desviar de raízes e troncos, lutando para se manter concentrado e não tropeçar. A chuva começava a cair, mas as copas contiveram boa parte da água, e assim também o fazia com a luz. Quando já estava uns 50 metros dentro da mata, resolveu desacelerar. Sua respiração estava rápida e o coração acelerado. Sentia a mente igualmente acelerada. Seu pensamento flutuava em algum lugar lá dentro, entre a euforia e a letargia. Nas ultimas horas, tinha experimentado o completo atordoamento e o abrupto tranco mais vezes do que podia suportar. Encostou em uma arvore para recuperar a respiração e perguntou a si mesmo o que faria. Primeiro, Tentou recobrar a consciência. Quando tentou lembra-se das últimas horas, as imagens vinham em flashes e rapidamente se dispersavam. Sabia que precisava sair do sítio, mas pela floresta seria difícil. Na infância, chegara a conhecer muito bem essas terras, mas hoje, com certeza, se perderia se tentasse cortar caminho. Olhou para a direita, em busca da margem da estrada. Atrás dele, um borrão de  luz poderia ser percebido onde estava a casa. Decidiu continuar, sem perder a estrada de vista.
Um passo por vez, olhando para o chão. Seguia apoiado nas arvores, já que a pouca visão prejudicava seu senso de direção. Nesse trecho da floresta, as arvores não estava tão perto uma das outras. Havia espaço suficiente para correr, se preciso. Pedro sabia que ainda havia o risco de pisar em alguma cobra, ou virar comida de jaguatirica. Assim, procurava um pedaço de pau para usar de apoio. A chuva conseguira penetrar mais, e o vento continuava uivando, forte como se soprado pelo próprio Aeolus. Resolveu acelerar o passo, pulando as raízes que se intrometiam em seu caminho. Quando finalmente encontrou um galho que poderia facilmente aparar algumas arestas e usar como apoio, percebeu que já havia escurecido completamente. Apenas o brilho prateado da lua tentava tocar o chão a sua frente. Não. Raios. Raios disputavam com ela. Não muitos. Apenas alguns, de tempos em tempos, que conseguiam dar um vislumbre do que tinha pela frente. Sua roupa estava encharcada e seu tênis pesado de água e lama. Respirou fundo mais uma vez, e continuou.
Trovões mantinham-no alerta. Cada vez que as nuvens apertavam as mãos, seu coração se envergonhava por uns instante e, no outro, tentava se impor. A canção dos céus, de alguma forma, também o acalmava. Sabia que ela viria, e isso o deixava mais tranquilo. Uma sensação mínima de controle. Pensava, deste modo, estar prevendo o que iria acontecer. Raio, um trovão. Raio, raio, trovão. Raio, e um estrondo tão forte que o assustaria. Assim, o ritmo da natureza o acompanhava. Em um momento, quase pisou em um sapo distraído que coaxava por ali. Sentia falta dos animais na floresta. Tudo ali era melancólico. A ideia do sítio lhe era melancólica. Chegava a sentir-se estranho. Suas entranhas pareciam não aceitarem estarem ali. Agora, a cada vez mais, suas lembranças parecia todas preto e branco.
Baixinho, começou a rezar, como se tentasse não ser ouvido pelas arvores, mas esperava fielmente que alguem o ouvisse.
Sentou em uma raiz tabuliforme, alta e espessa o suficiente para que pudesse encostar por algum tempo no tronco e relaxar. Não fazia ideia de há quanto tempo estava andando. Imaginava que não tinha parado por cerca de três horas. Seus pés ardiam e sabia que quando tirasse os tênis, calos estariam o esperando. A distância não era o problema. Não ainda. O problema era a geografia. E o ritmo. A dança por entre as arvores, de certa forma, o angustiava. Sempre adorou correr, e pode-se dizer que tinha bom preparo físico. Mas Pedro nunca foi paciente. Detestava maratonas, porém adorava corridas explosivas. Era tão maçante ter que andar vagarosamente, encostando em cada arvore. Era tão maçante que... De súbito, levantou. Olhou para o lado direito. Olhou para trás. Voltou a olhar para a frente. Não via a estrada, não via casa. Na verdade, não tinha certeza de qual lado era o esquerdo e o direito. Percebeu o erro terrível e sua respiração voltou a correr. Respirou fundo continuou. Reto. Contando e respirando no ritmo. Inspira em quatro segundo. Um, dois, três, sete, oito. Solta. Sente o diafragma abaixar-se. Aos poucos, voltou ao maçante caminho, um pouco perdido, um pouco desesperado e bastante cansado.
Sua pernas pediam para parar a cada passo, mas tinha medo da sensação de estar perdido voltar. Preferia continuar, talvez sem rumo, mas consciente de estar tentado alcançar a estrada. Olhou para o céu, deixando gotas de chuva caírem em seu rosto. A chuva estava mais fraca, mas ainda sim raios e trovões estavam presentes no céu. Pensou em virar e tentar encontrar a estrada, que imaginava estar em algum lugar a sua direita. Aí, lembrou-se do por quê de ter ido para a floresta. A sensação horripilante que o atingira aquela hora. Cresceu ouvindo as histórias de seu tio, sobre a mula que vagava por aquelas terras. Nela, não havia cabeça. Apenas fogo mágico, que queimava incessantemente. Em alguma época, que nesse momento lhe parecia bastante remota, perdera noites de sonos e ganhara sonhos assustadores, onde era perseguido pela Mula. Uma faísca de memória brilhou lá no fundo. Em algum lugar, conseguiu visualizar nitidamente sua avó, Dona Benta, repreendendo Barnabé pelas histórias. Um sorriso tímido sambou em seus lábios. Pedro sempre tivera o lado lúdico muito presente. Mesmo ali, na escuridão da floresta, com frio e cansado, sua imaginação, lentamente, fluía. Era como um fio de água que contornava um amontoado de cascalho.  Sempre insistente, permeava e atravessa, saindo do outro lado relativamente mais clara.
Nesse momento, imaginou como era possível uma mula, sem comer, sustentar um fogaréu daqueles. Imaginava a energia que ela gastava. Isso o relaxava um pouco. Fazia-o por as coisas em ordem. Organizar o pensamento. Focar-se em atravessar a floresta. Parou mais um momento. Apoiou um dos pés em uma arvore para dar uma alongada. Suspirou mais uma vez, e andou. Não havia andado mais de dez metros, quando ouviu um galho sendo esmagado ali perto. Seus pelos voltaram a se eriçar e seus olhos se arregalaram, alertas. Encostou em uma arvore para ter algum apoio e tentou identificar de onde vinha o barulho. Um pouco mais perto, ouviu as folhas no chão se quebrando. Virou e começou a correr. Não rápido o suficiente. Um vulto negro o seguiu, grunhindo bestialmente. Um arrepio subiu sua espinha e quase o fez tropeçar. Virou para a esquerda, tentando se afastar. Ao seu lado, a criatura gritava raivosamente, tentado alcança-lo. Conseguiu contornar uma arvore, e pode ouvir o som da madeira se despedaçando e o ruidoso protesto do monstro. Acelerou, com sua respiração tentando ser mais rápida que seus pés. Pulou uma grande pedra que apareceu repentinamente à sua frente. E, dessa vez, não teve sorte. A coisa o acertou violentamente na lateral do corpo. Pedro foi jogava ao chão com força, rolando uma ou duas vezes antes de conseguir apoiar-se. Um relâmpago iluminou rapidamente tudo a sua volta. Ela estava parada, o encarando, numa posição assustadoramente ameaçadora. Os braços, longos e peludo, abaixados, com as garras saltando para fora. Da boca, espumava, entre os dentes, uma saliva branco-amarelada. Pedro estava quase sentado, com uma mão apoiada no chão e o joelho flexionado, tentando se levantar.
  -Lobis... - sua voz saiu fraca e vacilante. Na sua frente, o monstro grunhia, rosnava, o ameaçava e rasgava uma arvore próxima, descendo as garras lentamente pela madeira. Pedro, em pé, percebera que havia perdido o galho em algum momento. Tentou não fazer movimentos bruscos. A criatura avançava, lentamente, saboreando cada momento de horror de sua presa. Se pudesse rir, pedro tinha certeza que ela estaria o fazendo. Suas longas orelhas agitavam-se, como se pudesse ouvir os batimentos cardíacos de Pedro. Lentamente, Pedro levou sua mão ao coração. Um trovão estourou logo acima deles, e a floresta pareceu tremer. O lobisomem rugiu em dor. Levou suas mãos levemente humanas às orelhas, tentando proteger a audição super sensível e desequilibrou-se, cambaleando para a árvore. Pedro sabia que essa era sua chance. Seu coração queria desesperadamente fugir, mas suas pernas já não o obedeciam. Rapidamente, a besta se recuperou e pareceu olha-lo com mais raiva. Preparou-se para investir, e Pedro finalmente conseguiu sair do lugar. Virou-se e correu o mais rápido que pode, mas sabia que não poderia competir com aquilo. Casa passada o fazia sentir o peso de sua vida. Em um segundo, visualizou seus últimos anos, na faculdade, e um raio, novamente, iluminou seu caminho. Virou, vendo o borrão do lobisomem passar reto, e pensou na prima. Outro passo, e lembrou dos pais. Sentiu a chuva, imaginando ser sua ultima. Outro passo, ouvindo o terrível ladrar de cem matilhas, fundidos no terror da vociferação do monstro. Outro trovão se espalhou pelos céus. Uma pontada de esperança e dúvida vibrou em sua cabeça. "Será que alguém realmente me ouviu?" A criatura cambaleou novamente, escorregando e caindo no chão. Pedro não teve tempo de parar. Pensou em subir em uma arvore, mas sabia que não iria adianta. Continuou correndo, sem saber para onde. Adentrando a escuridão da noite, guiando-se pelo reles brilho lunar. Sentiu o pé torce-se, apoiou em um tronco, deu dois passos tímidos e, então, parou. Virou-se, esperando seu fim. Fechou os olhos e agradeceu. Pensou que, finalmente, talvez Deus o tenha ouvido. Imaginar que estaria indo para algum lugar o deu certo conforto. Para quê fugiria? Mal aguentava correr. Agora, não conseguia nem sustentar o pé no chão. Encarou a escatologia sanguinária que avançava em sua direção, com a determinação inigualável de um lobo faminto. E, como se acorda-se desesperado, atrasado para um compromisso, ouviu uma bufada. Alta e forte, quase um motor ligando-se. Por milésimos de segundo, sentiu o bafo quente tocando seu rosto, e o cheiro de carniça queimar suas narinas. Ao mesmo tempo, ouviu as folhas serem violentamente esmagadas ao seu lado. O raio que caiu, com a maior rutilância, refletiu-se na queratina. Uma montanha de músculos que acertou o lobisomem. Pedro ouviu um suave ruído de chifre rasgando carne. O monstro decolou e desceu. Confuso, rugiu, e voltou a atacar. Pedro observou, a sua frente, a cosmogônica forma cinza, prostrada entre ele e a fera. O vapor da respiração dela se condensava no ar. O lobo, com velocidade incrível, desviou de um golpe e tentou cravar seus dentes na grossa pele do rinoceronte bípede. Em um instante de hesitação, quando não conseguiu sentir o calor do sangue ou o gosto do tutano, logo tentou soltar e arranhar a face do inimigo. Mas era tarde demais. As mãos cinzentas do rinoceronte-humano já haviam se fechado em seus braços e logo alcançariam seu pescoço. O lobisomem se debateu, desesperado, tentando escapar da colossal força que o prendia. Tentou morder. Seu erro final. Ao ver o focinho envolto em cinza, Pedro sabia que estava a salvo. O que não sabia, era como poderia ser horrível e aconchegante o som de uma mandíbula se partindo.
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Atualizado em: Seg 6 Abr 2020

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