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  • E é tão errado assim assumir isso?

    Alguém devia ter nos parado. Sei lá, Deus, ou seja lá o que, ou quem rege esse plano. Mas não pararam. Alguém entendeu que por mais que nós tivéssemos desrespeitado todas as leis impostas pelo universo, nosso perdão foi concedido no momento do primeiro beijo.
    alguém sorriu lá em cima como quem diria: "tá tudo bem. esses dois aí podem, nem eu posso interferir."
    é possível assumir que eu te amo sem parecer fraco? Quem foi o filho da puta que cultuou o orgulho?
    Eu amo. E amo pra caralho. eu amo tanto que nunca foi possível descrever com palavras ou atitudes, é um amor tão complexo que quase não diferenciar se meu desejo era teu corpo ou tua alma. Eu nunca soube se você era a respostas dos meus problemas, ou se era a causa deles; e depois de tantas idas e vindas dentro desse mundo, à única certeza que eu tenho é que nós ainda existimos.
    não num presente perfeito com fotos no instagram, memes no face e mensagens fofas de bom dia no zap, não num presente onde eu te vejo nos finais de semana e estamos sorrindo na mesa num almoço de família, não na porra de um cinema na quarta ou num bar na sexta, não na droga de uma festa de alguma amiga sua ou no meu. Infelizmente, assim não.
    mas nós existimos nos momentos que foram só nossos. Eu sempre acreditei em pra sempre, mas me fodi quando aprendi que o pra sempre não precisa estar presente. Suas, nossas memórias, estão tão intactas dentro de mim que vez ou outra ainda sinto seu cheiro no meu quarto, ouço seu riso em outra pessoa, ainda tem tanto de você espalhado pelo mundo que eu ando me perguntando se amar alguém é aprender a amar o resto das coisas.
    depois de você tudo ficou mais bonito, e talvez dar certo no amor signifique deixar ele florescer pro mundo, e não só pra mim.
    qualquer momento bom da minha vida tem seus olhos de fundo me dizendo: "seja feliz"
    e caralho garota, eu tô sendo. Eu tô sendo.
    mas é que se fosse com você, seria melhor.
    eu não sei se é saudade ou despedida. mas eu só queria te dizer que seu gosto ainda é diferente de todos os outros.
    e é tão errado assim assumir isso?
  • ...De quem é a cruz?

    Há certas coisas nas relações amorosas que não deveriam ser cobradas, uma delas é a empatia. Por que existem tantos casais que ignoram os detalhes? O que pra você pode ser algo bobo, pro outro pode representar de tudo! Enquanto um segue passando por cima desses detalhes, o outro já está pensando até em término. Pensem: "Como será que o outro se sentiria com isso?" Antes de tomarem determinadas atitudes, principalmente as que envolvem outras pessoas... Não tem como o outro ter 100% de certeza das suas intenções. Neste caso, o que realmente ameniza o incômodo, são suas atitudes. De que adianta tú falar que as coisas são de um jeito, mas agir de outro? Mesmo que pra você pareça que suas atitudes estão em coerência com suas afirmações, pro outro pode não estar sendo assim! É normal as pessoas se sentirem desse jeito... Tudo pode influenciar, desde referências familiares ruins, a um passado amoroso ruim, crenças sociais e etc... É importante ambos terem consciência de tudo isso. As vezes o outro está vivendo uma dualidade. Há uma visão de malícia nestas tuas atitudes, mas, existe uma outra parte que acha isso tudo uma bobagem. Por isso, prefere ficar em silêncio, mesmo que isso esteja ferindo o seu coração como uma faca! Constantemente se tem pensamentos horríveis, sentimentos deploráveis em relação ao ser a quem ama. Esse amor vai aos poucos se transformando em raiva, e vai consumindo, até que o outro não aguenta mais, e decide ir embora!
  • " O jardim de deus"

    "   Que belo jardim

           De rosas peroladas

           Cheiro bom de jasmim

           E de mata fechada




          A planta absorve

          O orvalho sereno

          Que nutre, comove

          Esse paraíso terreno 




          A borboleta que voa

          Em sua pétala pousa 

          Um olhar que admira 

          A sua beleza que ecoa




          Esse mesmo jardim 

          Foi plantado por Deus 

          Em um dia de folga 

          Que ele mesmo lhe deu "....
  • "Aprenda a ser só."

    Quando alcançamos tal plenitude, pouco importa quem está ao nosso redor. Sua companhia passa a ser mais importante que qualquer outra pessoa. Quando aprendemos e aceitamos que a única pessoa que de fato realmente importa somos nós mesmos, a vida se torna mais leve. Você veio sozinho a este mundo, e sozinho sairá dele. Não faça de suas relações, uma amarra. Curta e divirta-se o momento que lhe for proporcionado. Pois depois que se acabar, apenas as lembranças restarão. Também não se limite aos "e se's" que a vida impõe. Independente da situação, vá fundo. Adquira experiências. Não há nenhuma ferida que o tempo ou você mesmo não possa curar. Aprenda a se priorizar. Ninguém vale seu desgaste. Lembre-se você pode viver sem terceiros, mas não podes viver sem você. Você é seu melhor amigo, confie em si. Óbvio, não se mantenha trancafiado nessa caixinha que parece ser tudo seguro. O mundo tem muito a te oferecer. Permita-se experimentar, amar, e até mesmo, decepcionar-se. Afinal de contas, é mais um aprendizado para seu currículo de vida. Ame-se.
  • "Hora de compartilhar"

    Passamos pela era da informação, depois pela era da conexão, agora estamos na era de compartillhamento. Tudo o que for bom devemos compartilhar com o máximo de pessoas possível. Esse é o nosso papel nos dias atuais, ainda que nos sintamos impotentes diante do caos que está nosso mundo. Mas se não podemos salvar o mundo, façamos coisas que estão ao nosso alcance. A coisa está feia em todo lugar e em todo lugar do mundo tem pessoas precisando de ajuda, inclusive ao seu lado mesmo, na rua de sua casa, na cidade onde você mora. Por isso compartilhe!Tudo o que possa ser bom pra alguém, tudo o que tiver haver com o amor, com a bondade, com a sabedoria...
    Este é o momento de unirmos forças em prol de um mundo que está, literalmente, a beira do caos, mas que de forma alguma está totalmente perdido. A luz precisa de cada um de nós. E JUNTOS somos mais fortes! No AMOR somos mais fortes!
    Avante todos os trabalhadores da luz!
    A união faz a força... e o Amor é a Lei!
  • "REFLEXÃO" "harmonizando com o silêncio"

    Quando me harmonizo com o silêncio, com o rosto em prantos eu ouço bem baixinho meu coração contestando a veracidade do destino. Ouço ele dizendo que a maneira que o tempo escolhe para adequar com sua vontade, um sentimento extremamente sensível e verdadeiro, é um tanto dolorosa e amarga, é batalha acima da capacidade que ele possui no momento, nesse momento de reflexão, desejo da paz e da luz divina que conduz o maior e puro amor.

    Eu me deixo ser levado aos sons de DEUS, à sublime melodia da natureza, sentindo um querer natural de emudecer-me e refletir sobre as coisas que eu mais gosto e amo. Fecho meus olhos e deixo minha mente ver por mim, ela vai captando fontes sagradas que são me trazidas apenas pelo meu espírito. 

    Os reflexos coloridos dos jardins naturais resignam um destino para cada planejamento meu, as folhas se balançam, parecendo querer me dizer que também amam a vida e que sou bem vindo ali. Me entrego à energia suprema que neste momento me da confiança e me faz ser bom.

    Neste meu instante de sincronismo com a razão superior, me sinto na falta de merecimento e por um instante me retrocedo, revendo atos incabíveis que quando na fraqueza de espírito, eu cometi. Aborrecido comigo mesmo, suplico num grito emocionado a remissão pro meu único e verdadeiro refúgio,DEUS.

    Percebo que minha súplica foi concedida, uma paz absoluta neste momento se põe e minha alma, no mais profundo do meu ser, me oferecendo ainda mais vontade de viver. Por tudo isso. Viverei, agradecerei e amarei.

    Enviarei um link aos que quizerem ouvir esta reflexão com trilha sonora e narração feitas por mim! Basta me enviar uma mensagem, um recado deixando um e-mail, lhes enviarei com o maior prazer e ficarei grato! Aguardo sua solicitação! Obrigado a todos!
  • "Se os negros fossem rosas"

    Foi em um show, eu vi homem que passava nas arquibancadas vendendo rosas. Tal figura, prendeu minha atenção por ser o estereótipo do que chamaríamos de favelado. Um negro favelado, vendendo rosas. Sozinho, alheio ao show, a euforia e as conversas, pensei, "e se negros fossem rosas?"
    Seriam rosas escravas, vendidas, humilhadas, exportadas, de seu belo hábitat natural. Seriam um conjunto de rosas fugitivas, rosas fortes, que com seu trabalho, enfeitaram o buquê nacional. 
    Rosas pobres, exiladas nos morros, presas na miséria, empurradas para favela. Seriam, mesmo assim, rosas felizes.
    Vendo atrocidades históricas, pessoas presas por racismo, mortas pela intolerância, "confundidas", julgadas e com suas vidas destroçadas, por conta de um simples engano, se fossem rosas, estariam vitimadas, despetaladas, sem cor, pisoteadas, inúmeras rosas vermelhas a forrar o chão.
    Se os negros fossem rosas, o Brasil seria um roseiral de indizível tamanho e beleza. 
    Por fim, se os negros fossem rosas, seriam trabalho, luta, conquista, sonho, talento, crescimento e canção. Um botão de esperança, florescendo no lado esquerdo do peito.
  • "Senta aqui, vamos tomar um café"

    Senta aqui, vamos tomar um café?! Jogar conversa fora? Rir pra caramba, quem sabe chorar em algum momento. Senta aqui, vamos falar sobre nós! Como você está? Seus planos? Suas conquistas... Conta mais.

    Senta aqui, vamos matar a saudade de nós, vamos aproveitar um tempinho livre pra descansar a cabeça, o corpo! Senta aqui, vamos falar sobre sonhos, até mesmo daqueles mais cabulosos, quase impossíveis! Senta aqui, vamos olhar dentro do olho, ver como estão brilhando. Senta aqui, me deixa ver como você está bem, como você está feliz!

    Quero sentir seu abraço por alguns instantes. Ouvir sua voz, sua risada. Senta aqui, deixa eu te contar como eu estou como me sinto. Senta aqui, quero te contar uma ideia maluca que tive. Senta aqui, lembra aquela viagem que eu queria fazer, deu certo! Senta aqui, me ajuda a fazer uma lista de prioridades! 

    Preciso ir... Obrigada pela companhia, pelo café, pelo abraço, pela voz doce e suave, pelos conselhos impagáveis, pela companhia maravilhosa, pelas gargalhadas que demos, pelas bobagens que falamos e pela saudade que matamos!
  • (De)pressão.

    Eu via pessoas correndo num jardim.
    Todos os dias, vinham pessoas diferentes para correr num jardim.
    Eu nunca pude ir nesse jardim.

    Dentro, um vazio.
    Um branco.
    Tudo é branco.
    Nada é branco.
    Isso é só algo que eu criei pra imaginar que houvesse algo ali.

    Os pássaros cantaram.
    As mais belas flores desabrocharam.
    E, em dias como esse;
    Crianças devem brincar num jardim.

    Mas eu não podia ir no jardim.
    O jardim não podia vir até mim.
    Eu destruiria o jardim se fosse possível.

    Na verdade, ninguém liga pra esse jardim estúpido.
    Ninguém liga para as malditas crianças que correm no jardim.
    Ninguém precisava se importar.

    Eu vivia no vazio.
    Eu amo o vazio.
    O vazio é um lugar só meu.
    Ninguém mais pode entrar no meu vazio.

    Mas, sinceramente, as pessoas odeiam meu vazio.
    Elas odeiam com todas as suas forças.
    Existem algumas pessoas que me levam à outras pessoas que me dizem pra eu deixar meu vazio de lado.

    Mas eu só queria brincar no jardim.
    Eles não me deixam ir no jardim.
    Eles não me deixam no meu vazio.
    Eles não me deixam em lugar nenhum.


    Me deixem em paz.
  • (SOBRE) O CADÁVER DA BELEZA

    Uma lágrima-sorriso
    se verteu do amar dos olhos,
    com tanto sal, com tanta vida
    quanto a própria luz do olhar.
     
    Uma lágrima choveu do céu dos olhos seus,
    brincando com os ares do rosto,
    num sorriso cáustico
    de que mesmo a vida
    já teria sido sonhada
    alguma vez...
  • [Cartas] AGORA

    Jamais seria capaz de imaginar como se daria isso aqui. O agora. Nos seus exatos termos. É surreal demais. Tem instantes que demoro a acreditar… olho para mim mesma e digo, baixinho, num sussurro “eu ansiei tanto”… momento que torno as estações passadas e, quase sem querer, realizo uma comparação drástica, percebo o contraste. E constato que, pela primeira, a realidade conseguiu ser imensuravelmente mais do que a imensidão que outrotra fantasiei.

    Cada dia me vejo ainda mais surpreendida.

    É incrível tudo o que me proporciona sentir.

    Sou, sobretudo, grata.

    Reconheço que gosta do meu eu, nu e cru. Adoro isso, como sou sempre eu mesma, de verdade, sem filtros. Não faz ideia de como gosto do mim quando estou com você. Já que não tenho receio de mostrar quem realmente sou, não vejo barreiras e instante algum cogito não fazer o que tenho vontade por receio de como vai me perceber.
    Não há julgamentos.Também não os temo.

    Me deixa a todo instante incrivelmente confortável, sinto-me divinamente bem em mostrar todas as versões de mim mesma.

    Ah, ainda há tantas que não viu. Aliás, será um imenso prazer te mostrar.

    Sabe o que me impressiona? O que me cativa ainda mais?

    Que não idealiza o meu eu, não me quer como uma versão pirata de mim mesma. Deseja o meu eu, nu. Conhece aos poucos cada uma das minhas versões, enxerga os acertos e os erros e, ainda assim, permanece.

    Não se é preciso dizer nada, sem proferir nenhuma palavra, já me mostra o suficiente, esse detalhe significa o universo e o mundo…

    E isso é somente uma das coisas que me fazem admirar o agora.

    Obrigada.

    Obrigada, por tudo que me proporciona sentir.
    Obriga, pelo nosso “agora”.


    Janaina Couto ©
    [Publicado — 2020]

    @janacoutoj

  • [Cartas] AUSÊNCIA

    Me surpreende que mesmo há muito tempo sem te ver, falar, fitar, sentir, tocar, encarar ou simplesmente lhe escrever… não houve sequer um dia em que eu não tenha pensado em ti.

    É absurdamente estranho. Você distante, me magoando, não só por isso; mas também, por aparentemente não fazer questão, como quem já não mais se lembra. Me magoando, pois te vejo evitando todo e qualquer contato comigo, por mais ínfimo que seja. Digo isso com certeza, já que você sabe muito bem onde e como me encontrar. As poucas notícias que tive a seu respeito, desde então, foram através dos nossos colegas, afinal, tu continuas mantendo contato e saindo com todos os meus amigos..., aliás, sem sequer pronunciar o meu nome. Me machuca ver que usas de todos os meios e artifícios para inibir, obstruir, desviar todas as minhas tentativas em simplesmente conversar. Deve fazer ideia do quanto acho isso infantil.

    Não sei se fico feliz por você aparentemente ter superado e seguido ou incrivelmente decepcionada por perceber que não marquei o quanto imaginava, na mesma intensidade que as nossas estações marcaram a mim. Adoraria conseguir lidar muito bem com as idas e vindas, chegadas e partidas, mas não é do meu eu. Desmorono.

    E mesmo na ausência, você se faz tão presente… é na rotina do meu dia, na pausa para o café, na caminhada até a faculdade, é durante o meu banho, até na insônia da calma noite chuvosa… não precisa de muito, basta o soar de uma música para eu memorar um instante, ouvir uma frase (sutil) e julgá-la tipicamente sua, o notar de um perfume e percebê-lo familiar, é simplesmente tornar um lugar e ter uma “reprise” dos minutos que estivemos por lá. É, sobretudo, desejar insanamente o teu toque, o teu corpo, a sua fala mansa, ansiar temerosamente estar novamente no envolto do teu abraço e ser preenchida pelo teu cheiro. Sim, a sua presença é leve.

    Confesso, nos primeiros dias estava a ponto de delirar. Ouvia o seu nome, relia nossas mensagens de texto, procurei todas as nossas fotos, ouvi todas as músicas dedicadas a mim e também reli todos os textos que te dediquei. Lógico, escrevi muito na tentativa de exteriorizar e arrancar de mim o peso da sua ausência e até usei todas as suas camisas que ainda estavam no meu armário. Passei em claro todas as madrugadas quentes de agosto pensando em nós, em você, em tudo que aconteceu e que poderia ter acontecido — martirizando-me sobre o eterno “e se”. Em cada instante sozinha, eu pensava na dura transição do “nós” para o “eu e você”.

    PS. Jamais vou te perdoar se nas próximas estações todas às vezes que ouvir “É Você Que Tem — Mallu Magalhães” e “João de Barro — Maria Gadú” o meu pensamento cair em ti.

    Eu ainda penso em nós. É, sobretudo, nas frias madrugadas tempestuosas, ao ser acordada pelos estrondos dos trovões, ao perceber o quarto iluminado não só pelo clarão da lua que atravessa a imensa janela, mas também dos raios luminosos que invadem e espantam a escuridão — você sabe, detesto raios por temê-los -; instante que me sinto pequena, frágil e extremamente vulnerável… lembro o quanto você me julgava boba e infantil por isso, mas ainda assim, me abraçava fortemente e não me soltava… não faz ideia do quanto eu me via protegida, naquele instante, ouvindo sua respiração, o meu mundo estava concentrado em você, mesmo que não estivesse vazia, uma felicidade insana me preenchia ao me dar conta de que você sempre estaria ali, comigo e eu por você.

    No entanto, é especialmente nas noites de sexta que o meu corpo pulsa e anseia pelo seu toque. O desejo de ter você, por inteiro, não somente no meu corpo, mas também na minha alma, assim como desejo de uma vida ao seu lado, de modo que meros instantes não seriam o suficiente. [Me arrepio ao escrever isso]. Sim, eu sei, disse para ti inúmeras vezes “que a nossa coisa perdure, enquanto sentido fizer”, ela ainda fazia sentido para mim, em partes; jamais irei esquecer a imensidão que o tempo contigo me proporcionou, sobretudo, me fez ser alguém melhor, mudou minha visão sobre algumas coisas, me ensinou muito e acabou agregando uma oitava cor ao arco-íris que chamo de vida… até a ruptura.

    Ainda enquanto estávamos juntos, ao deitar na cama cansada à procura do sono, imaginava um futuro incrível, deduzindo infindas possibilidades, criando e reinventando as cenas mais distintas… com apenas uma coisa em comum, você em todas elas. Vez ou outra me pego fazendo a mesma coisa, não largo essa velha mania, madrugada que coloco os meus fones na fútil tentativa de me dissociar do teu eu. Não é incomum, busco me castigar afirmando para mim mesma que você não merece tomar todo esse tempo de mim, então realmente digo isso a mim mesma, alto e em bom-tom, com convicção — pois preciso que me digam com seriedade já que sou teimosa —; corro para o espelho e reproduzo mais duas ou três vezes a mesma oração. Por alguns minutos, funciona. Depois paro e penso no que fiz, mesmo que eu seja “mulher” para algumas coisas, nisso eu me vejo muito infantil, boba, ingênua. Sabe, alguns momentos tenho 30, 20, 12 anos... isso me assusta e te assustava também.

    Mas, no final das contas, esse ritual de nada adianta, não importa o quanto eu queira. Tenho raiva de você por arrancar todo esse tempo de mim, tempo que eu gasto pensando em nós, escorre; e tenho ainda mais raiva de mim por atrelar a culpa a você de uma coisa que está em mim. Quem sabe, talvez com o correr do tempo, eu me acomode a sua ausência até não mais percebê-la; e se isso for verdade, que o tempo sana tudo, Deus, como quero que ele passe.

    Porém, acima de tudo, isso não é a parte difícil, o duro é assumir que, apesar de tudo, sinto falta de alguém que, ao final, me magoou. Jamais irei me perdoar por uma coisa dessas. Como se habitassem duas pessoas em você, o cara pelo qual, talvez, me apaixonei e o cara que me fez ir embora, não faz ideia do quanto sinto a presença da ausência desse primeiro. Não sou tola, recordo com clareza todas as suas condutas que me magoaram, desde ações às omissões, coisas que falou, coisas que você não fez… foram tantas. Sim, penso “ele não me merece, nunca mereceu”. Mas, instantaneamente, recordo das partes gostosas, dos instantes que fui surpreendida, que, aliás, superam de longe as demais coisas — que se fazem diante dessa comparação tão bobas — e me remetem à minha criação do seu “primeiro eu”; portanto, acabo me sentindo uma mentirosa.

    Me sinto mal ao afirmar “você me magoo”, pois me vejo apontando o dedo e gritando isso na sua cara; sendo que tenho total consciência de que a recíproca também é válida. Talvez, eu tenha te decepcionado profundamente e isso justifique a sua partida efêmera. É contraditório, mas nas últimas semanas conturbei muito as coisas entre nós, justamente tentando fazer dar certo. Nós dois somos terrivelmente diferentes.

    Sei que peco em muita coisa. Não consigo ser direta e isso atrapalha tanto, principalmente por prolonga discussões, é o meu defeito, você o conhece bem e sabe o quanto o detesto. No mais, às vezes cobro que você pense como eu, espero que você supra minhas expectativas e entre outras coisas. Tem hora que deixo a razão falar mais alto ou a emoção. Eu não tenho equilíbrio, talvez por isso seja digna de elogios como “desequilibrada, descontrolada, louca”. Eu erro, falho, estou muitas vezes equivocada. Mas, quando acontece reconheço, assumo a bomba, isso nos diferencia. Eu não tenho receio em pedir perdão, quando vejo sentido, me desculpo com o coração, jamais da boca para fora… de mim nunca haverá manipulação... afinal, é como se concretiza um pedido de perdão sem mudanças. Mas, isso não vem ao caso agora, não é o cerne da questão. Sou uma pessoa difícil, você também é. Sabe, eu temia tanto isso… que nós magoássemos um ao outro.

    Nunca falei tanto sozinha como no último mês. Vez ou outra me deparo questionando em pensamento algo sobre ti e outra versão de mim mesma responde alto e em bom-tom. Quando é mais latente, me deparo jogando “n” coisas na sua cara, como se estivesse ali, diante de mim. É insano. E tudo cessa com a frase “Pelo amor, você tá ficando doida”.

    Choveram tantas coisas em mim. Me vejo num eterno não senso. O “sim” e o “não” na mesma pessoa. O desejo e o desprezo em tê-lo comigo, afinal, se é para ficar e eu me sentir daquela forma, você sabe qual, prefiro que vá. Eu queria te proporcionar dias gostosos no último mês e penso que não consegui… não me doei como gostaria. Aceito defeitos de todos os tipos, menos a indiferença. Os momentos de desdém me matam. Me mata principalmente reconhecer que, nos últimos dias, eu nāo fui o melhor de mim, em muitos sentidos. Serei franca, culpo você por isso.

    Não é novidade: o meu eu contra si mesmo.

    É assim, sempre dessa mesma forma, basta em pensar seja lá o que for ao seu respeito que novamente aquele desejo me consome. É uma chama azul. Um fogo me domina de tanto que queimo em intensidade na ânsia de ter-te comigo… me contorço e o meu corpo estremece na abstinência do teu toque, desejando o teu amor, desejando com todas as minhas forças a ponto de te fazer pensar em mim, a ponto de sentir você pensando em mim, até que tudo se desfecha em brasa. Delírio. Chame do que quiser, loucura, insanidade. Procure adjetivos e se encontrar, seja qual for, não conseguirá definir.

    Eu nunca imaginei que chegaria a esse nível. Insanidade. Qual é o sentido disso? Me levará ao que? Será que é tudo isso em vão? Acredito que não, quero acreditar que não, acreditar que não foi e não é tempo perdido, não quero reconhecer que insisto em alimentar algo que cedeu ao fracasso. Então, na tentativa de cessar a tortura emocional e psicológica digo em voz alta para mim mesma: “Que tipo de perguntas idiotas são essas?”.

    Está claro, não é? Estou tão confusa... indo e vindo em centenas de coisas e não chegando a lugar nenhum. Mais uma vez, perdendo o foco... a concentração. É isso o que sua ausência está me causando "desconcentração".

    Não entendo como ousa me ignorar, evitar. Me corta as suas ações, pois elas me dizem que fui para ti apenas um capítulo. Enquanto fiz e faço de você o meu melhor livro, aquele favorito, que jamais canso de ler e reler. Eu gostaria de ter razões suficientes para acreditar que seu intuito é justamente tentar demonstrar isso, mas, que, no fundo diverge da realidade. Realmente me corta, pois, eu ainda te desejo. O meu íntimo, ainda que não insista em acreditar que estávamos “destinados a ficar juntos” (não sei qual termo usar para definir), ele espera, com força, que você enxergue o quanto é gostoso quando estamos juntos, ao menos, para mim, um tempo foi… enquanto o distanciamento ainda não existia.

    Não, eu nunca disse e não estou dizendo que quero ser tudo para você; mas, a pessoa que não trocaria por nada. Nos proporcionamos um amor puro, percebi assim. Serei eternamente agradecida por essa dádiva. Sobretudo, gostei imensuravelmente da nossa coisa. Adoro o vínculo que construímos e é cortante vê-lo se diluindo. Talvez, eu não seja o grande amor da sua vida ou você da minha, o destino é uma álea, aliás, nem sei se existe isso de “o eterno amor” ou sequer “o grande amor da vida de alguém”, mas, saiba, que o nosso foi — ainda é — o amor mais intenso e breve que vivi.

    E, por falar em destino, infelizmente, você será a minha eterna saudade, quem sabe a eterna quedinha, talvez o eterno desejo. Não sei. Mas, tenho certeza de que fez e fará parte das minhas melhores recordações. Jamais esquecerei a grandiosidade do que me permiti sentir, com você. Nem sequer cogitarei intitular como fase, paixão ou ilusão tudo o que pulsa aqui. Agora, já não faço ideia da sua percepção sobre o nosso enredo, espero que seja um tanto parecida com a minha. Me fará sorrir se, eventualmente, de alguma forma, eu souber que pensa em mim com carinho, que te atingi de um jeito bonito. Apesar dos pesares.

    Ainda assim, soa tão simples quando diante do que acreditei causar. E é um imenso contraste se comparado ao que me causou. Seria um prazer se lembrasse de mim como a garota pela qual foi apaixonado, a amiga pela qual teve carinho, a mulher que te causou imenso desejo… que te proporcionou conhecer um sentimento que queima de tão intenso, quem o incendiou, sobretudo, quem realmente lhe despertou o amor.

    Não se é preciso ser perfeito para ser incrível na vida de alguém.

    Vez ou outra me pego pensando se, depois da ruptura, houve uma madrugada sequer em que você tenha me desejado. Me desejado de alma como por um lapso temporal já desejou, já demonstrou, já gostou. Já sentiu. Desejo mesmo, sabe? Que só em me olhar te consumia, te preenchia por uma vontade insana e intensa, como uma fúria interior, um querer que corrói, uma imensidão latente implorando para me ter ao seu lado por toda a vida. Não faz ideia do quanto eu amava imensuravelmente esses instantes, os instantes que sentia e via o seu olhar em mim me dizendo o universo e o mundo.

    Será que, por um momento, uma mísera vez, se questionou se ama ou se já me amou?

    As suas palavras, escritas, cuspiram na minha cara que não. E, ainda assim, demoro a acreditar. Contradizem tudo o que vivi:

    “Olha, desculpa.
    Me desculpa por cada vez que te deixei triste, por cada momento que te decepcionei.
    E, principalmente, por às vezes parecer um idiota com você.
    A real é que essa coisa é grandiosa e eu não sei lidar.
    Eu não levo nada a sério na minha vida, muito menos ela própria.
    E, sobretudo, não sei sequer um dedinho do que é sentir algo por alguém.
    Por isso, mudo repentinamente, sem mais nem menos, fico diferente do nada, meu estado de espírito me controla naturalmente e esqueço que as pessoas têm sentimentos e que preciso respeitá-los.
    Quero me afastar de você. Não por mal, mas porque não te faz bem ficar comigo.
    E eu não sou bosta nenhuma e não tenho nada para te oferecer de bom.
    Por fim, agora, ainda que compartilhemos a mesma lua, estamos muito longe um do outro.
    É isso.
    Ps. Sou grato pelo tempo que esteve comigo. Foi puro."

    Não faz ideia do alvoroço sentimental que as suas palavras frias me causaram. Juro, ri ao terminar de ler, um riso sem alegria, aquilo era o cúmulo do absurdo. “Você sabe, não sou a pessoa que insiste na presença de quem já não quer ficar. Perde o sentido”. Depois de tudo o que você vomitou, pensei o infinito e o mundo e não dirigi a ti mais nenhuma palavra.

    Ainda que eu diga para mim mesma, com veracidade, em alto e em bom-tom, que eu simplesmente me acostumei com a sua presença, me sinto uma mentirosa, tentando envenenar o meu pensamento na fútil tentativa de sanar o meu sentir. Nunca imaginei que seria doloroso e difícil assumir, bater no peito e falar, mesmo que somente para mim, que amo você.

    Isso é tão irônico, não é? Eu aqui, em devaneios por sentir o peso da sua ausência, enquanto ti sequer depois daquele dia, da ruptura, me ligou…

    E ainda assim, sou nua e crua ao falar que te desejo as melhores coisas do mundo, ainda que isso signifique se afastar de mim. Você sabe o que é melhor para você. E, no momento, eu não faço ideia do que seja o melhor para mim.


    Janaina Couto ©
    [Publicado - 2019]

    @janacoutoj

  • [Cartas] CRU

    Quando disse, de boca cheia, que estás entregue a mim, que tenho ao meu lado o seu verdadeiro “eu”, confesso, como de costume, fiquei questionado comigo mesma, de mansinho, a sua fala:
    “De nada adianta eu ouvir suas palavras e não ver, tocar ou sentir o que diz. Palavras podem ser vazias.”
    Felizmente, as suas, sinto que não são. Principalmente por, logo em seguida, ter fitado os meus olhos e afirmado, sustentando o olhar, que “escolheu isso”, por toda a nossa troca, acredito indubitavelmente.
    Realmente, vejo que temos um ao outro de uma forma que muito me cativa.
    Adoro a forma que me têm, que me cuida.
    Eu gosto disso.
    Gosto da forma que me trata.
    Faz com que eu me sinta grata.
    Sobretudo, bem comigo mesma por toda a minha doação.
    Não faz ideia da minha sede pelo teu “eu”.
    Confesso, ver a sua entrega me deixa fervendo. Sei que, independente do que aconteça entre nós, jamais irei me arrepender por mergulhar, sequer por queimar em intensidade.
    Seja assim, nu e cru.
    Seja de verdade comigo.
    Seja quem você quer ser.
    Seja e aja da maneira que quiser.
    Seja a melhor versão de si mesmo.
    É óbvio, ninguém é o mesmo para sempre. A mudança é crucial. O cerne da coisa é sempre ser si mesmo. Te peço, jamais se torne uma versão pirata de si mesmo somente para agradar me agradar.
    Já te disse, acredito que podemos ajudar um ao outro a nos tornarmos pessoas cada vez melhores. Evoluir, transcender.
    Mas, ainda assim, desejo que seja sincero consigo mesmo. Seja você. E, se mudar, mude por escolha sua, por ver sentido na mudança e deseja-la. Mude para evoluir, nos seus ideais de evolução.
    Quero isso. Eu quero o seu “eu” nu e cru, anseio conhecer todas as suas versões.
    É gostoso dizer com convicção “tenho um puta orgulho de quem está comigo”.
    Quero ver tudo de você. E, vendo tudo, ainda assim, justamente por ver tudo, continuar sendo muito do que eu quero.
  • [Cartas] DESPEDIDA

    Lembro de você me chamar, segurar a minha mão e me guiar.

    Era pouco antes das dez da noite. A noite bonita. Depois da nossa longa conversa, levantou do banco marfim entre as árvores do condomínio, pegou na minha mão e disse “vem aqui”. Não sabia onde iríamos, mas levantei e deixei-me levar. Eu estava descalço e sentia a grama fria em meu pé, entrelaçando nos meus dedos. Enquanto me conduzia, por entre o emaranhado de folhas, parou um instante. Olhou para trás. O seu rosto de um jeito convidativo, um sorriso de canto, seu olhar castanho fitando os meus lábios, fez-me arrepiar. Voltamos a caminhar, “eu estou descalço”…”não importa, só vem comigo”. E eu nunca vou esquecer a sensação da grama fria nos meus pés.

    Chegamos na parte mais bonita da pequena vegetação tropical que cercava o condomínio. Paramos, você não precisou falar nada, o seu abraço me disse o universo e o mundo. Confirmando tudo.

    Recordo o seu toque leve acariciando os meus braços até suas mãos chegarem e relaxarem em minha cintura. Eu estava nervosa, tensa. Você tentava me deixar confortável. Não era a primeira vez que te via naquele clima e daquele jeito, mas era tudo ainda mais intenso. Havia algo de diferente. Forte. Eu sabia a imensidão que significava aquele momento mas, me recusei a aceitar.

    Numa tentativa falha de cessar, postergar, comecei a falar. Você me encarou fixamente, repousou os dedos nos meu lábios — “shh” — e, num sussurro, me pediu pra parar de falar porque você queria me beijar. Não era o meu primeiro beijo com você. E ainda assim, eu estava com medo, tão aflita que sequer entrava no clima. Podia não ser o primeiro, mas sabia que seria o último.

    Infelizmente algumas situações precisam ser vivenciadas. Não há como fugir. Elas cortam, mas são necessárias. Não podem ser adiadas, elas nos cercam, quando menos esperamos. Reconheci que aquela noite marcava a nossa despedida. E isso me torturava. Antagonicamente marcava o fim e confirmava a intensidade de tudo que vivemos, a grandiosidade do que nos proporcionamos sentir. Árduo, mas belo.

    Resolvi postergar, não o momento, mas a dor. Faria da nossa última noite uma celebração da nossa curta história de “amor”.

    Teu olhar sereno me fitava. Seus olhos trêmulos. Com um sorriso de canto, me disse “é necessário”. Exalando pesar, assenti. Em meio às árvores que abafava o som de “Brooklyn Baby — Lana Del Ray” que ecoava da festa, deixei me guiar. Foi só em meu rosto tocar e, como sempre, me desmanchei. Você não falou, mas não ouse chegar a negar. Nunca te vi tão obcecado por mim como naquela noite. Desejo. Como se o seu eu não só ansiasse, mas dependesse do meu. Queimava em intensidade de um jeito que nunca havia visto e que jamais esquecerei. Almas conectadas. Transcendemos.

    Nunca conversamos a respeito daquele dia depois. Não nos vimos. Não nos veremos. Para mim foi bem mais que intenso. Enquanto decidia simplesmente a ti me entregar, uma reprise dos nossos dias invadia minha mente. Uma reprise do meu melhor verão. A sensação enquanto parávamos para respirar era gostosa, saber que por alguns instantes nos pertencemos, que estávamos em sincronia. A cada exalar, um momento nosso tornava a minha mente, fazendo-me grata por dividir um verão com você. Tão grata que mesmo hoje, distantes, provavelmente um pouco mais diferentes, somos duas pessoas, que não mais se conhecem, mas com uma história gostosa, repleta de lembranças inimagináveis e momentos incríveis — em comum — de uma intensa paixão de verão.

    Lembrei de quando me levou para conhecer a galeria, depois do luau. Era enorme. Fiquei boquiaberta com o quanto se dava bem em tudo atrelado à arte. Não só compunha belas canções, mas também dava vida à telas maravilhosas. Por ser totalmente leiga, impressionada, fiz uma série de perguntas. Tu não se irritava com minhas indagações, ao contrário, me contava graciosamente sobre tuas técnicas. Inspiração. Gostava de te ver daquela maneira, expondo seu íntimo.

    Tornei também à noite do karaokê, cantamos juntos “What’s Up? — 4 Non Blondes”. Lembrei da festa da Mallu, você me irritava me chamado para dançar enquanto eu resistia alegando não saber, mas, na hora que eu sentia você em mim a sua calmaria me inundava e toda fútil irritação se evadia. Independente de experiência, achei teus movimentos tão graciosos. Definitivamente eu não sabia dançar. Porém, contigo eu não tinha receio de arriscar. Não haviam barreiras. Foi a primeira noite que dancei literalmente sem pensar no amanhã.

    Passamos a maioria das tardes do verão em seu ateliê. Adorava te ver trabalhar enquanto jogávamos conversa fora. Aliás, jamais esquecerei o meu pique de euforia ao ver uma pintura minha lá. O meu melhor artista. No entanto, adorava ainda mais quando cantava “Onde anda você — Vinicius de Moraes”. Tudo em ti me derretia, não era só o seu beijo. O teu jeito. Quando nos encontrávamos, instantaneamente algo me preenchia, embora antes não estivesse fazia. Eu não te completava e nem vice e versa, a gente transbordava.

    Em pensar que na primeira vez que te vi, não imaginava tudo que estava por vir. Nunca iria presumir o quão profundo um envolvimento de férias poderia me tocar. Sequer que umas horas de papo furado na praia com um cara bêbado de sorriso malicioso iriam acarretar tudo isso. Felizmente, tive o prazer descobrir que tu era bem mais do que isso, bem mais que um cara bonito cheio de lábia com jeito de inconsequente.

    Você tinha sede de conhecimento, tão sedutor explicando-me os assuntos mais complexos, isso me desmoronava. E ao passar do verão, me cativava cada vez mais. É deslumbrante memorar o quanto me mostrou, não me refiro só os lugares bonito que me levou, mas também, às nossas horas de conversa, sua filosofia que pouco a pouco me fazia ver por outra perspectiva a vida. Era uma troca. Troca de conhecimentos, experiências, questionamentos e, claro, amassos.

    Confesso que a sensação, o clima de incerteza, sobre o que rolava entre a gente era gostosa. Você tinha a sua coisa, eu a minha, e quando a gente se encontrava era muito bom. Havia mistério, nem começo nem fim. E eu não queria perder o controle da situação. Não poderia ser tão fácil assim. Eu definitivamente não era esse tipo de garota, não me apaixonava assim. Mas, aquele verão foi diferente. Você foi o diferente.

    “Foi mais que um prazer conhecer você, foi incrível” as lembranças evadiram-se e rapidamente eu voltei, para a nossa última noite, afinal, eu voltaria para São Paulo na manhã seguinte. A noite ficou encantadora. E foi naquele instante, enquanto pronunciava aquelas palavras e o teu olhar avelã me fitava, que percebi o quão sua frase naquele primeiro dia na praia “a gente não tem nada ver” foi completamente descartada. Seu rosto corou, se entregou, estampou a verdade.

    Não imagina o quanto eu havia esperado, ansiado, desejado aquele momento ao longo de todo o verão, com o meu apressado e quem, sabe, inconsequente efêmera paixão. O instante exato que tive certeza que, pra ti, a nossa coisa também foi surreal. Química demais, conexão demais para ser verdade.

    O melhor de tudo foi que mesmo o Rio de Janeiro transparecendo despedida, ao longo de não um, mas vários beijos, o clima daquela noite não poderia ter sido melhor. Caloroso. Não era uma noite de despedida como as outras, não era capaz de me reconhecer. Não lidava bem com despedidas. Mas, estranhamente, reconhecia que estávamos fadados a ela, apesar de não aceitar.

    O clima, embora de já exalar saudade, não pesava. Conformismo? Tu agia de uma forma que eu jamais imaginara, sempre tão autêntico, agora afável, sereno, mas ainda assim, algo característico seu, mas um lado que eu desconhecia.

    Não sei se eu fui uma pessoa qualquer dentre as demais. Você não foi. Creio que alguma memórias não ousará em deixar para trás. Não tem como. Nos conhecíamos havia pouco tempo e já tínhamos uma conexão esplêndida, te contei tantos segredos, mas nunca abri meu coração. Lembro que você mencionou “a nossa história” comigo algumas vezes e, em pensamento, me questionava o quão apressado, cedo, era pra você falar isso. Presa em minha própria teia. Eu queria mais. Disposta a me deixar levar. Quando eu teria uma aventura como aquela novamente?

    Mais cedo, antes de tudo, sentados juntos naquele banco, olhando o céu escuro, sentindo a brisa da noite calorosa — o som da festa ao fundo “Art Deco — Lana Del Ray” — conversávamos e eu juro que tentei. Tentei de verdade, abrir meu coração. Falar sobre o sentimento avassalador que me dominava, fazendo desejar cada vez mais e mais dias como aqueles contigo. Corroía. Já não me importava se era cedo, se burlava todos os meus conceitos. Tentei e eu estava disposta a colocar tudo pra fora independente do que você fosse falar ou pensar.

    Eu tentei: “não fala nada, você só vai me ouvir”, comecei a falar sobre umas coisas e logo desisti. A insegurança de sempre veio a tona e eu me senti tão boba. Boba por ter atribuído intensidade demais a tudo. Enquanto eu tentava revelar a imensidão do que na época sentia, simplesmente ao desenrolar das palavras, a coisa mais forte que eu consegui dizer foi apenas “saiba que eu gostei de você” e tu instantaneamente virou o rosto em minha direção, me olhou, inclinou a cabeça, mordeu o lábio e confirmou o que lá no fundo eu já sabia “eu também gostei de você, demais, pra caramba”.

    Mas nenhuma de nossas falas remeteu ao amanhã. Independente do que ia acontecer ou não depois daquele instante, eu precisava aceitar, realmente, paixão de verão. Porém, uma coisa eu pude ter certeza, nos dedicamos uma história breve, mas sensacional. Confessa.

    Não esperava vivenciar sequer uma parte de tudo isso. Sequer é possível falar qual a melhor parte da “nossa coisa” sendo que eu gostei de absolutamente tudo. De todo o verão contigo. Talvez você não lembre da mesma forma que eu ou apenas não lembra mais de tudo que sentiu na época. Mas, se tem uma coisa que eu jamais irei esquecer é você. O cara pelo qual fui inconsequentemente apaixonada. Jamais irei esquecer a minha curta paixão de verão.

    Definitivamente uma paixão de verão, não passou disso. Justamente a sensação de incerteza sobre o que seria depois foi a graça de toda a coisa.

    Lembro de sentir a grama fria entrelaçar os meus dedos dos pés, dos seus beijos, do seu ritmo caloroso, do seu gosto, do nosso calor. Foram só alguns dias, mas que marcaram imensuravelmente aquele verão.

    Lembro de cada detalhe da despedida.


    Janaina Couto ©
    [Publicado — 2017]

    @janacoutoj

  • [Cartas] ESQUECIMENTO

    Noite passada eu não parei de pensar em ti. Hoje, muito menos. Incrível como isso pode ser tão irônico. Justamente ontem fiz uma pausa para refletir a respeito dessa minha nebulosa onda sentimental que insiste em não cessar, na tentativa de encarar com racionalidade e me livrar da tortura. Notei que passar mais estações sofrendo não só por sua; mas, também por minha causa e pela “nossa coisa” já não fazia sentido.

    Afinal, você sabe o meu número, conhece os meus amigos e poderia muito bem falar comigo se sentisse saudade, se fosse da sua vontade. Diferente de mim. Ás vezes me questiono sobre isso, se tu pensas exatamente do mesmo jeito e fica á espera de uma atitude minha. Mas, no mesmo instante, recordo que você não é assim, age por impulso quando quer algo, não exita em fazê-lo. Porém, acaba por descartar tal característica ao dotar-se de orgulho. E pela forma como tudo terminou, não posso de maneira alguma descartar essa hipótese, “cuspiu no prato que comeu” foi uma frase bem forte.

    Detesto fazer presunções, soa tudo tão incerto. Aliás, tu não é desses que se prende a alguém. Sendo franca, algo dentro de mim quer estancar a minha percepção da realidade, qual compreendo até demais, além dela estar distante do que eu gostaria, não é nada agradável e acaba por ser doloroso de aceitar. Mas, não posso seguir tentando enganar a mim mesma, soterrando e afugentando o que está escancarado. Você seguiu em frente e eu ainda não superei a ruptura em todas suas facetas.

    Concluí, com decepção, que no fundo, não consigo te esquecer porque realmente não quero, ainda permaneço a alimentar este sentimento. Não me permito conhecer outras pessoas, pois sei que nenhuma delas será você. Vez ou outra, me pego fazendo comparações até mesmo nas coisas mais ínfimas ou caçando características tuas nelas; pior, inconscientemente te projetei em um outro alguém. Tem noção do quanto isso foi prejudicial?

    Não obstante, reconheço o porquê de tudo. Apesar de toda a parte cortante da história; é evidente, houveram sim momentos dignos do título de “inesquecíveis”. Me apeguei a estas memórias intensamente e não quero que o desejo de vivenciá-las novamente se apague, por temer perdê-las, já que ansiando as lembranças são tão vívidas.

    Logo, me vi decidida a deixar tudo isso para lá e encarar de frente a situação. Não mais passaria minhas tardes com o pensamento em ti e evitaria nas conversas tocar o seu nome. Tentaria não me frustrar todas às vezes que, ao chegar e pendurar o casaco, perceber que a minha sala está do mesmíssimo jeito que deixei pela manhã, um sinal de que naquela noite você não passaria aqui em casa para jantarmos juntos; que eu não teria seus dedos tateando as minhas costas num vai e vem para me fazer dormir, que não ficaríamos envoltos num grande abraço corporal e eu não mais em segredo iria tentar sincronizar minha respiração com a tua; que não seria aquecida pelo teu corpo quente e sequer me sentiria acolhida pelo teu sorriso e o seu olhar terno. Não escreveria mais sobre você, muito menos sobre nós. [É evidente, fracassei]. Ficaria realmente aberta para conhecer outras pessoas, à espera de alguém sobretudo interessante, para me divertir ainda que de maneira efêmera e “queimar em intensidade como um dia incendiei por ti”… mas, rapidamente descarto a ideia, pois tenho a sensação que jamais seria a mesma coisa, nos seus exatos termos.

    Quando essa nevoa passar, quando realmente me der conta, ficarei surpresa comigo mesma. E sei que vou perceber a transição somente quando os meus escritos falarem apenas de mim e não mais de você.

    Naquela noite, reconheci que esse meu desejo constante e a esperança de que nos encontraríamos novamente para viver o “amor mais intenso de nossas vidas”, como se fôssemos amantes predestinados, nos encontrando novamente e trazendo a paixão do passado sempre a tona; era um sonho utópico, mera fantasia. Apesar do nosso caso ser reincidente, qual seria a probabilidade de acontecer novamente?

    Eu definitivamente estava ficando louca e cogitando coisas que eu sempre desacreditei. E, pior, ainda assim tenho a convicção de que nada disso faz sentido.

    Definitivamente os meus delírios de amor já estavam indo longe demais. Eu havia decidido que a partir daquele instante não iria mais pensar em ti, não iria forçar para te esquecer (é até antagônico), não iria imaginar momentos contigo e nem ansiar teu toque.

    Mas, incrivelmente, nessa mesma noite, ouvindo música enquanto tomava um vinho tranquilo, me deparei com o som de “Take My Breath Away” e ele destruiu todos os meus planos e decisões anteriores.

    Pois, por incrível que pareça, essa melodia sedutora retrata uma paixão em chamas e descreve fielmente tudo o que o meu íntimo mais deseja, a razão pela qual ele pulsa. Isso mesmo, desejo que nos encontremos novamente, trazendo para o agora aquela mesma paixão avassaladora e aquele sentimento quente, que me deixava em chamas.

    Desejo que a paixão que brotou na juventude, ou seja lá o que for que ainda permanece vivido aqui, não se desmanche — em ambos os lados. Eu sempre, verdadeiramente, não só esperei, como também acreditei, com lasciva veemência, que estávamos fadados a um intenso romance; assim como retrata a canção.

    Projetei tanto que não me conformo com esse desfecho, não consigo me render a essa ideia. Digerir que nossa envoltura não estava como imaginava, que de um instante ao outro perdi o eclipse, o acontecimento centenário que tanto ansiava, uma oportunidade não aproveitada; pra ser sincera, não quero me render, evitando a frustração de sentir-se vencida pelo que mais temia. Sofro pela perda do que nunca me pertenceu, pelo que não vivenciei, pelo que poderíamos ter sido.

    Não sei se fico feliz por já ter tido você por instantes ou decepcionada pela possibilidade de não tê-lo novamente. Talvez, minhas palavras não passem de devaneios, frutos de uma decepção amorosa. Mil e um pensamentos rodeiam a minha mente enquanto meio torpe escuto essa música e te escrevo.

    Sei, pode parecer brega, mas super a minha cara, escrever cartas para alguém que jamais irá recebê-las. [Você sabe muito bem disso].

    Definitivamente ainda não consigo esquecê-lo e a canção só me faz lembrar e desejar ainda mais estar em você. Não paro de ouvi-la ou de muito menos desejá-lo, de ansiar tudo aquilo novamente. Afinal, pode ser putativamente, mas sinto que vivemos nesse jogo tolo de amantes que a letra tanto fala. Sou eu quem está assombrada pela noção de que em algum lugar existe um amor em chamas, voltando, retornando de algum lugar secreto no interior.

    Ou, talvez, eu somente esteja meio torpe.

    Sabe, o vinho me deixa “alta”.

    Acredito que amanhã darei risada e me sentirei ridícula por tudo isso.

    Bom, espero.


    Janaina Couto ©
    Publicado em 2018

    @janacoutoj

  • [Cartas] FANTASIA

    Eu fantasiei. Fantasiei muita coisa a respeito do que estava rolando entre nós. Finalmente, depois de tanto tempo, identifiquei que também fui parte do problema. Tudo aquilo era tão novo, tão excitante, aquela sensação de perceber que o cara pelo qual sempre tive uma queda estava claramente na minha, me corria! Isso arrasou o meu psicológico. Literalmente.

    Você fazia as coisas mais simples e esperadas de um cara que está afim de alguém, mas, simplesmente pelo fato de ser você, eu me sentia incrível, a grande contemplada; me contentando com migalha. Afinal, desde o início, lá atrás, sequer cogitava a hipótese de te atrair, pois, não me enquadrava nem um pouco com as mulheres que você costumava sair.

    Não foi assim que te vi. Não, definitivamente não foi, apesar de ter chamado fortemente a minha atenção de primeira. Foi de modo gradual, com decorrer do tempo, quando passei a conhecê-lo realmente [ou melhor, quando acreditei que o conhecia], que me encantei por você.

    Confesso, inicialmente, me recusei a aceitar já que aquilo parecia o cúmulo do absurdo, cheguei a passar por toda aquela fase de negação que, aliás, foi relativamente longa. No entanto, reconheci que mentir para mim mesma não fazia sequer sentido, como poderia sentir vergonha por ser capaz de me cativar por alguém antes mesmo de tocá-lo?

    Mas, o problema não estava nisso, jamais fora o sentir. A grande questão era o receio de não ter o meu interesse correspondido, como já mencionado, ao meu ver eu não fazia “o seu tipo”. Esse pensamento me inibiu por um tempo considerável, até que, em meio às brincadeiras da galera, você passou a dar sinais favoráveis a mim.

    Mas, para a garota que no fundamental era alvo de chacota entre os garotos da turma, tudo aquilo não passava de mais gozação. Aliás, acabou por ser um dos principais motivos da minha insegurança e baixa auto-estima, qual até hoje percebo seus reflexos. Não era capaz de acreditar. No entanto, por incrível que pareça, aos poucos eu cedi à medida que você pareceu tão confiável, claro e franco. Você não era como eles.

    Não é novidade, sempre há um “porém”, você agia diferente comigo em detrimento das demais garotas da classe, com uma espécie timidez, acanhamento. Não faz ideia do quão isto deturpou a minha mente. Eu precisava encontrar um porquê. Cheguei ao ponto de identificar uma espécie de padrão nas garotas que você curtia; e, pior ainda, me rotular como não interessante e/ou atraente como elas. Que apesar de sentir-se atraído por mim, jamais seria na mesma intensidade que elas o atraíam. Eu não podia competir.

    Sinto vergonha em assumir que tive tal pensamento esdrúxulo, como se nós, mulheres, estivéssemos numa competição; ou que pelo fato de uma mulher ser para ti atraente e eu não possuir as mesmas características que ela me diminuísse de alguma forma. Além do mais, tola, por ter sido tão ingênua e deter uma visão distorcida sobre “conquista”, já que ainda não compreendia sobre “reciprocidade” e “leveza”.

    Sei bem o que me levou a isto. Sabe o que? Minha tentativa fútil de justificar a razão pela qual as coisas aconteciam lentamente entre agente. Não, eu nunca fui e não sou apressada, a real era que você me enrolava e eu não conseguia compreender o seu porquê. Você agia diferente comigo, não tinha atitudes negativas, ao contrário, tinha medo e eu só não sabia do que. De agir? Pois, chega a ser curioso, eu estava apta a me deixar levar e isso não era possível quando reconhecia que apesar de sentimentalmente a coisa ser mútua, você ainda assim não tomava atitude consonante.

    Havia algo sim, medo, receio ou sei lá o que, você não era assim e isto me fazia reconhecer que era por causa de mim, eu causava essa reação em ti. Era por isso que eu viajava. Não conseguia entender o que te embasava. Porque não me chamava logo pra sair? Demorou, mas, depois finalmente compreendi.

    A sensação que vigora entre nós era a de estar pisando em cascas de ovos, a todo instante evitando deslizes, constantemente tendo cautela exagerada em tudo para não estragar o pouco conquistado em tanto tempo. Mal sabíamos que isso nos impedia de sermos nós mesmos.

    Fazíamos o possível para manter a boa impressão e não afugentar o outro; eu, por exemplo, chegava a ficar minutos pensando em como responder uma mísera mensagem; você, por hora, corava ao falar comigo em nossa roda de amigos, ficava sem graça e ao invés de conversar se afastava.

    Justamente o zelo e o desejo de que “fluísse naturalmente”, sem colocar pressão ou sequer expectativas no que acontecia, de modo a não fazermos projeções para evitar a temida frustração, tornava tudo ainda mais embaraçoso.

    Mal sabíamos que só em pensar dessa forma, estávamos os dois concomitantemente implorando para dar certo. Expectativa. Não chegamos a falar isto, mas, era evidente dos dois lados. Eu dançava conforme os seus passos. Mesmo não concordando com o lance da demasia, isso me consumia. Mas, ainda assim, continuei a dança, persisti naquilo, afinal, eu também queria que desse certo.

    Em virtude do anteposto, é evidente, não deu certo. Recordo os detalhes, consigo explicar conjunto de fatores externos de uma forma lógica que inibiram o que desejávamos, mas não sei bem explicar como isso pôde ser maior que a intensidade e pureza do sentimento avassalador que havia ali, aparentemente, a magia da primeira paixão de adolescência não era tão forte assim.

    Alguns verões depois, em tese “maturos”; se comparado a nossa, ou melhor, a minha — em especial -, falsa percepção de conquista, idealização de amores e nula experiência quanto a mãos, bocas e perfumes, nos esbarramos novamente. Destino? Universo? Coincidência? Não sei, não importava. A minha única convicção era de que jamais cometeria o mesmo erro que anteriormente. Desta vez, não havia um sentimento antecessor, paixão ou seja lá o que, para complicar as coisas ou até mesmo postergá-las.

    Em contrapartida, havia ainda forte interesse e, claro, lembranças. Isso deixava tudo inflamado, quente. No início, estávamos jogando e o flerte não só era excitante; mas também, escancarado.

    Além de tudo, a minha percepção de mundo havia mudado, já não mais existia aqueles fantasmas de baixo autoestima ou qualquer coisa atrelada a me taxar como insuficiente. Naquela época, eu não me sentia menos que inteira. Aquele seria o meu ano e me permitiria viver e sentir o mundo, nada iria me impedir.

    Estava decidida e isso foi ótimo. Sim, “foi” enquanto ainda tínhamos tudo sobre controle. As coisas são imprevisíveis. Sou emotiva demais. Perdi o controle. Aos poucos criei um vínculo muito forte e só pude perceber quando me peguei implorando para isso se desfazer, pois, eu me magoei demais.

    Como alguém pode insistir permanecer com algo que acabou por tornar-se mais motivo de decepção do que satisfação, por julgar que é melhor ter aquilo do que perdê-lo? “Melhor pouco do que nada”? “A frustração ao abrir mão seria maior”? O que havia acontecido com a história da “reciprocidade”?.

    Cara, você fez eu me sentir especial. Não como se não existisse nenhuma outra garota aos seus olhos; mas, como se dentre tantas mulheres encantadoras, você pudesse escolher uma, ainda sim desejaria e preferiria estar comigo, jamais por me achar melhor do que elas, mas por ter zelo à nossa troca de energia. Porque, no meu ponto de vista colorido e bem elaborado, você estava apaixonado [novamente] por mim. Como eu disse, fantasiei, ou melhor, acreditei. Ou será que apenas não fui capaz de discernir as coisas?

    Mas, o problema foi que sim, talvez eu tenha fantasiado. No entanto, você colaborou fortemente para isso. É mais que óbvio quando um cara chega para sua irmã, dizendo que desejava mais que tudo que fosse você quem estivesse ali e ainda a questiona sobre o que ela pensa a respeito da possibilidade dele te namorar, com o intuito de aferir se a sua vontade era essa também. Eu sentia mais que o suficiente. Eu queimava em intensidade.

    Ah, você acabou com o meu psicológico. Mas, estranhamente, por um longo período, foi um dos motivos que mais fez bem a ele. Sabe, a única coisa que realmente me faz ter saudade era em como estar com você fazia eu me sentir ainda melhor. Gostava de ti, logo, ter-te por perto era gostoso.

    No início, cheguei a te dar todo o crédito pelo “bum” da minha auto felicidade, pela minha autoestima, pela minha calmaria, pelo meu bom humor — que se fez tão marcante naquela época -, pela minha inteligência e demais atribuições e características; eu definitivamente me sentia incrível. Não que eu não fosse nada disso anteriormente, apenas não havia percebido e você reconheceu, me mostrou.

    Porém, durante muito tempo fui equivocada e acreditei que você havia me dado tudo isso. No entanto, não sou egoísta ao ponto de não assumir que adorava saber que você me via daquela forma, da maneira que eu gostava, do jeito que eu era.

    Tínhamos uma troca muito gostosa, havíamos decidido encarar a situação da melhor maneira. A regra era clara, não cometer os mesmos erros. Mergulharíamos. Sim, mergulharíamos, profundo, desde que aquilo que nos motivasse fosse puro, sincero, espontâneo. Intrínseco. Não magoaríamos um ao outro.

    Justamente por tal, por proposta sua, conversamos, nada ficou a cegas, expomos o nosso interesse e a partir disso surgiu o acordo: o lance deveria ficar entre nós, seria “a nossa coisa”; a melhor maneira para nos conhecemos definitivamente sem qualquer tipo de pressão alheia ou algo correlato; inicialmente, sem nenhuma cobrança sentimental, já que não havia sentimento pré-existente para ambos, diferente de outrora; porém, como consequência de se conhecer, impossível seria descartar a possibilidade, consiste em algo qual não detemos controle, logo, nessa hipótese seriamos francos e claros um com o outro. Um pacto perfeito para nós dois.

    Tu não é capaz de imaginar o quão uma simples mensagem sua, inesperada, me alegrava, muito menos sequer compreender tamanha euforia que suas frases curtas quando acompanhadas pelo famoso sorriso mútuo, já que os seu olhos sorriam também, de “te quero” [como intitulei] me causavam.

    Algo florescia, era quente, pulsava, dominava; minha respiração ficava desregulada, sentia uma leve palpitação e por uma fração de segundo eu entrava em transe enquanto um calor percorria ferozmente o meu corpo; no mesmo instante podia sentir meu rosto aquecer, momento em que tinha certeza da nova cor que minhas bochechas haviam ganhado, me via envergonhada só em cogitar a possibilidade de você perceber todo o alvoroço que causava em mim.

    Afinal, acreditava que tu estava sendo sempre franco (de acordo com o nosso combinado), chegando até a ficar frustrado nas poucas vezes que eu ironizava suas falas, pois, era encantador demais ouvir-te pronunciá-las, quase que surreal, não me restava saída que não a brincar com a sua frase na fútil tentativa de não te deixar perceber o embaraço que você provocava em mim.

    Sua companhia realmente me fazia muito bem. Não imagina o quão eu me sentia incrível por saber que era por ti admirada, desejada; em sentido amplo. Como se eu tivesse te conquistado. Reciprocidade. Sim, reciprocidade, uma vez que que eu sentia o mesmo por você. Achava um máximo que apesar do seu jeito sarcástico, nos instantes mais inesperados, involuntariamente, você me falava coisas tão bonitas e logo após ficava sem graça, como fuga, caçoava ao se dar conta que estava sendo “romântico pra caralho”.

    Frases que jamais esperava ouvir de qualquer cara, muito menos de você. Além do mais, me tratava de uma forma que me surpreendia. Me surpreendia realmente, ternura.

    Lembro detalhadamente de cada borboleta no estômago, cada instante de aceleração dos meus batimentos cardíacos, de cada respiração ofegante, do desejo em te ver todo dia, de cada troca de olhar, dos joguinhos, dos teus sorrisos maliciosos, do seu olhar profundo me fitando com o famoso sorriso de “te quero”. Sempre lembrarei. Confesso que, por esses instantes, eu sou grata a você.

    Foi sim perfeito, no começo. Ao decorrer do tempo, o tratado já havia sido parcialmente descartado, ignorado, seja lá como queira chamar. Descumprido, já que víamos sentimento surgindo, ou melhor, metamorfoseando-se para ambos e estávamos gostando daquilo; não que essa parte não tenha sido prazerosa, só que não fomos específicos, não conversamos a respeito, que seria o ideal já que devíamos ter honrado o pacto. Justamente isso acarretou, a longo prazo, um problema no quesito “intensidade”.

    Mas, ainda assim, estava no ar, era evidente, límpido e posso afirmar com convicção que não tratava-se de um ponto de vista exclusivo meu; para ti também estava óbvio.

    Não obstante, conforme anteposto, sermos silente e não tratar do assunto ocasionou uma confusão, na verdade, uma teia, graças a você, que foi cínico o suficiente ao ponto de utilizar tal argumento, um tanto quanto fraco, como justificativa ao me ver te questionar sobre o que possuíamos e o que seria do depois (quando pude perceber que estávamos mais uma vez fadados a não ficarmos juntos). Me vi cercada, sem saída, sem argumentos e, de certa forma, traída.

    Tudo parecia maravilhoso demais pra ser verdade, aí reconheci os vacilos. Que na época eu não enxergava dessa forma, sempre acreditava nas suas explicações e razões, que hoje, reconheço como as mais idiotas possíveis, coisas que para com quem você afirmava “ter uma história”, partiam o coração na hora e logo depois, antes mesmo de você arranjar uma desculpa escrota, eu acabava criando uma razão lógica para tal atitude me culpando.

    As estações tinham mudado, mas eu havia estagnado o tempo, queria eternizar o que possuíamos. Cai na real apenas quando não só o ritmo, mas a canção era outra. A letra dessa vez era difícil pra caramba, eu não apreendi. Sinceramente não tenho como apontar um motim, sequer compreendo o que aconteceu. Me vi imersa numa situação qual eu sozinha jamais seria capaz de mudar. Estava surtando com o seu vai e vem.

    Recordo claramente a primeira vez que me disse “perdi o interesse”, na verdade, contou-me uma série de coisas quais se resumiam nesta curta frase, a única que assimilei. Foi cortante, me senti péssima, pois, jamais cogitara nosso distanciamento. Porém, eu prezava pela reciprocidade. Aceitei. Não o questionei ou pedi uma explicação, mesmo tendo certeza de que merecia um mísero “porque”.

    Jamais iria me humilhar dessa maneira, fazer questão de alguém que já não quer ficar. Havia tomado sua decisão, respeitei. Decidi encarar isso da melhor forma e não era de modo algum negando a sua existência, muito menos me martirizando para te esquecer.

    Por incrível que pareça, estava me saindo bem, daria certo. Exatamente, “daria” se você não se aproveitasse do meu método para se aproximar aos poucos e tentar restabelecer o vínculo que eu ainda não havia cortado. Não posso mentir para mim mesma, te vi chegar, não convidei, mas te permiti entrar. Afinal, eu não havia cortado o vínculo e ao ver-te tomar tal atitude, me equivoquei ao interpretar como um “me enganei”. Acreditei que aquilo não iria mais se repetir. Tudo se restabeleceu como se nada tivesse acontecido, como se o seu vínculo jamais fora rompido.

    Na realidade, eu é que me enganei. Me enganei ao crer que aquilo não mais aconteceria. Aconteceu, infelizmente, mais de uma vez. Está aí o problema, quero dizer, parte dele; ou melhor, um deles, percebeu? Hora você me fazia pirar de tanto desejo; Outrora, me fazia ficar mal, ao te ver tratando-me como um tanto faz, como se só me quisesse por perto apenas nos momentos em que eu te convinha. Isso era péssimo, sentir-se uma pessoa que apenas convém e não alguém com a qual se tem zelo.

    A sua indecisão me corroía, era doloroso ficar no meio termo. Tu sabia que o meu sentimento era mais forte quando comparado ao teu e se aproveitou disso. Evidente era que eu queria estar contigo, mas, desde que você quisesse o mesmo; jamais cogitei a possibilidade de implorar ou desejar que você permanecesse aqui sem querer ficar, não sou do tipo que era egoísta consigo mesmo ao ponto de mendigar reciprocidade.

    Porém, infelizmente, eu ficava naufragando e emergindo, hora você era a boia que me salvava, ora a água gélida que invadia minhas narinas e estranhamente queimava. Não, eu não mendiguei reciprocidade, mas aceitei migalha.

    Você estava sempre indo e vindo. Sinto-me mal em falar, mas, apesar de não pedir para você voltar ou ficar; ainda assim, estava sempre a disposição, afinal, era melhor estarmos juntos quando você queria do que eu te dar um fora e não poder sequer sonhar com a possibilidade do que possuíamos dar certo. De qualquer maneira, fui sim egoísta comigo.

    Eu, que sempre odiei meios termos, me submeti a um por causa de você. Identifico-me integralmente com aquela frase da Clarice Lispector “Não suporto meios termos. Por isso, não me doo pela metade. Não sou sua meio amiga nem o seu quase amor. Ou sou tudo ou sou nada!”.

    Fui tão cruel comigo, me senti impotente e mais uma vez, tentei jogar o peso da situação para mim “Como pude deixar você escapar pela segunda vez?”. Errando comigo pela enésima vez, eu não havia deixado nada. Ao contrário, você mudou comigo completamente e eu, sinceramente, não estava mais aguentando me submeter a tentar resgatar a “nossa história”. Fui cruel ao me culpar por colocar um ponto final no seu vai e vem.

    Hoje, reconheço que jamais estarei sendo egoísta por me colocar em primeiro lugar.

    Viajei, pra caramba. Viajei ao pensar que aquele seria o nosso ano. Óbvio que você também não ajudou muito. Sabe o que é mais impressionante? Na época eu tinha plena certeza que você estava sendo sincero. Pior que isso, eu. EU via você apaixonado por mim. Pesado, não é? Me questiono se tudo isso que eu via em você era real ou apenas fantasia. Tudo foi tão intenso.

    A minha intensidade. A brisa nostálgica do passado. Como eu posso ter inventado; ou melhor, fantasiado aquilo? Foi a única conclusão a qual cheguei, fantasia. Sabe porquê fantasia? Não consigo encontrar um explicação lógica para ti de uma hora para outra jogar fora, ou melhor, abrir mão do que demoramos para constituir (tratar como tanto faz).

    Lembra? Eu, que não me permitia se fascinar ou me entregar, me apaixonei duas vezes por você e, na última, esperando um resultado diferente, mergulhei completamente nesse teu mar agitado, porque tu me fazia ver-te águas cristalinas de uma atraente calmaria, te permiti me conduzir, te daria um voto de confiança e passei a acreditar que me desejavas como se necessitasse de mim. Fantasia.

    Pra ser sincera, se fantasiei, eu não sei.

    Já não consigo decifrar o que eu criei [inventei para mim mesma] do que realmente aconteceu. Será que cheguei a fantasiar algo? Idealizei ao ponto de perder a percepção da realidade? Francamente, esses sentimentos e as lembranças são tão vivas em mim que chego a duvidar.

    Resta, agora, um turbilhão de emoção e lembranças com uma pitada de confusão. Sim, confusão, uma vez que não sei o motivo de você ter se afastado de modo tão repentino. Me arrisco a dizer que foi quase como se tivesse renegado o que ousou um dia chamar de “nossa história”. Renegado não somente isto, mas o que nos permitimos sentir.

    Não compreendo o porquê, se aquele foi o sentimento mais incrível que tinha despertado, até então, por um cara. Justamente por isso, ainda não consigo colocar nenhum outro acima de você. Que, aliás, já não é mais merecedor do posto que ocupa e, aqui dentro, travo uma batalha pra te destituir.

    E por falar em fantasias, nas madrugadas após as conversas mais gostosas contigo, que mexiam tanto comigo e me causavam até insônia, esperando o sono chegar ao longo do resto da noite eu fantasiava, idealizava, momentos ao teu lado. Momentos simples e intensos de uma vida que eu torcia tanto pra acontecer.

    Você também já fantasiou momentos comigo? Creio veementemente que sim, pois, nas madrugadas era tu que me mandava mensagens criando um roteiro de uma vida comigo, aliás, roteiro qual seguiu por um breve momento. Não faz ideia do quando ansiei para que seguisse o roteiro completo daquele verão.

    Fantasia. Incrível como uma palavra se faz tão presente. Fantasias quais eu ainda, em meio a madrugadas de verão movidas por uma brisa nostálgica, me pego memorando. Viajando. Então, eu levanto, coloco pra tocar um indie, me sirvo uma taça de vinho, e fico ali, no escuro da sacada debruçada no parapeito, dispersa em devaneios enquanto observo o quão deslumbrante pode ser a cidade sob o negro do céu.

    Espero profundamente que isto não seja um sintoma de saudade.

    Estou mais confusa do que nunca, não sei se desejo me afastar ou ficar junto de você. Sou incapaz de concluir isso. Novamente, sendo ainda mais egoísta comigo. Tu não faz ideia do que é sofrer de amor. Será que já não sei diferenciar a fantasia da realidade? Ao dizer fantasia, me refiro ao fato de ter atribuído mais emoção e importância a tudo que acontecia. Isso não seria apenas intensidade? Afinal, eu queimava em intensidade. Sempre queimei. E se eu não tiver fantasiado? Talvez seja o que tenha acontecido, ou não. Mas, e se tiver?

    Será que me apaixonei pelo que inventei de você?


    Janaina Couto ©
    [Publicado — 2019]

  • [Cartas] NAUFRÁGIO

    Não consigo “estar” com alguém só por desejo carnal efêmero. Sou intensa demais. Adentrar no teu jogo, certamente seria empolgante e me proporcionaria muito êxtase, por ser você a jogar comigo. Porém, em contrapartida, tenho receio e medo só em cogitar o depois.

    Além desse detalhe importantíssimo, ao decorrer desses meses, aferi características intrínsecas tuas quais muito me cativam, arrisco-me até a dizer que a ti conheço. E gosto pra caramba desse cara. Em virtude da construção de uma amizade suave e, inicialmente, sem mais pretensões, tenho zelo por ti. Recordo com euforia as memórias de cada dia, fala, olhar, toque, canção. Claro, já ansiei por muito mais.

    Estamos engajados numa confusão. Nenhum de nós sabe como agir. Sentimos exagerar, passar dos limites ou até mesmo errar diversas vezes. O pior é que errar jamais fora tão gostoso. Ao menos, alego com firmeza desprezar “meios-termos” por não saber lidar. Tu, por vez, apesar de sentir-se assim, é fascinado por esse jogo e quer me fazer jogar. Porém, não há regras, como pretende me ensinar, se até você perde-se em si mesmo?

    Momento acaricia meu rosto e beija minha testa, agradecendo-me por ser sua amiga; outrora, me abraça e desenha com o indicador círculos suaves em meu corpo, enquanto sussurra ao meu ouvido admirar tanto quem sou a ponto de sentir imenso tesão. Me arrepio. As coisas não iniciaram assim, os deslizes e desejos surgiram com a convivência, o tempo (ao menos para mim).

    Não como se ambos possuíssem pseudônimos, pelo olhar reconhecia-se o homem e a mulher devassa que sempre existiu e fazia parte de um único “eu”. Mesmo, constatando aquilo como inadequado, eu não resistia. Somente quando os toques, olhares e falas ultrapassavam a minha tênue linha imaginária entre a afeição e a volúpia, instantaneamente era preenchida por lucidez. Sempre fui eu quem cessou todos estes instantes, na iminência de algo que evidentemente mudaria intimamente, para mim, o nosso elo.

    Se dependesse de ti, isso jamais ocorreria. Nunca um momento seria postergado ou ocluso. Como já apontei, a inconstância te seduzia. Justamente o que te fazia insistir a mim para prosseguir. Parecia um ritual, segundos após me ouvir dizer “não costumo agir assim com amigos” dava-se por vencido. Então roçava os lábios por meu pescoço e posteriormente me fitava já com o polegar pressionando os meus lábios e sibilava “eu quero, mas não posso nem mesmo beijar você. prometi”.

    Antes de toda esta loucura, rebuliço, começar, lembro com detalhes o que me disse “posso te falar uma coisa? independente do que você vai dizer, pensar ou julgar, eu preciso contar. não parei de pensar em ti essa semana, desde o dia em que nos beijamos sob o seu guarda-chuva. isso é um problema?”. É notório, adorei a sua sinceridade e não só por isso; mas, também porque o acontecido não saia da minha mente, respondi “desde que o intuito de seu contato comigo não seja em face apenas dessa forma de desejo ou gana, não há problema algum”.

    Eu estava disposta a deixar as coisas acontecerem, mas jamais ficar empacada no meio-termo e, por via, nos condicionando a um alvoroço sentimental polido pelo conflito de interesses.

    Não obstante no início eu enfatizei, deixei claro inúmeras vezes, o quão despreza sentir-se cobiçada apenas por características físicas quais já nasceram comigo como é o caso do que alguns podem chamar de “beleza”; e não também por atribuições quais adquiri, como força, inteligência, empatia ou coragem. Claro, digo tangente ao como quero ser desejada por aquele com quem tenho um envolvimento ou relacionamento “amoroso”.

    Tenho fervor por quem me têm como tentação por inteira, corpo e alma. É óbvio, gosto e sinto-me muito bem ao saber que veem beleza em mim e por isso ser considerada e me considerar uma mulher atraente. No entanto, venero ainda mais ser considerada sensual — chame como quiser — em razão do conjunto de todo o meu eu; corpo, essência e modo de ser.

    Conversávamos diariamente, nunca diálogos monótonos, já passamos madrugadas expondo nosso modo de ver, pensar e valorizar as coisas, refletindo sobre os mais diversos e complexos assuntos, este já esteve por diversas ocasiões em pauta e você demonstrou sincronia comigo a respeito.

    Há uma outra questão qual não posso deixar de mencionar. Incoerentemente, no “meio-termo” você gosta de ser profundo, ou melhor, quente de um jeito exagerado que me deixa com o pé atrás. É vantajoso, para você. Não sei qual palavra utilizar, “quente” transparece intensidade, mas, ao que me refiro, está longe disso. Na realidade, soa para mim como se você tirasse proveito libertino.

    Confesso. É gostoso saber que sou desejada por alguém cujo também tenho interesse em suas diversas facetas. No entanto, em primeiro lugar, você sabe que não me permito ter essa envoltura contigo por uma intrínseca questão de seguridade e confiança, ou seja, tanto quanto ao parceiro como na relação existente. Sua insistência comigo especificamente neste quesito está me dando nos nervos, por questões óbvias e razões infinitas.

    Além de tudo, em segundo lugar, mas não menos importante, o seu desejo por mim se não for meramente físico é expressivamente nele pautado; o fato de se resumir à isso me broxa toda. Me faz perder o interesse. É frustrante.

    Apesar de já ter me dito “desejo na sua pessoa também, não só fisicamente. é um conjunto que fez surgir interesse em mim” e eu confiar na sua fala, tuas ações demonstram o contrário, fico dividida. Não sou hipócrita e compreendo que nem sempre foi assim, porém, agora é o que vigora, já que não perde uma oportunidade para adentrar no assunto. Se sinto-me inibida até mesmo para beijar-te implicada nesse “chove e não molha”, como pode achar que algo mais intenso aconteceria? Fico surpresa com seu pensamento mirabolante, chega a ser inusitado.

    Ao que parecia, nós aparentávamos possuir mais sincronia do que realmente tínhamos. Me vi precisando escolher se permitia o desenrolar e transformação do nosso vínculo ou se insistia na amizade. Pois, como eu poderia insistir em algo que não fosse da vontade ou sequer fruto do consenso de ambos? Eu precisava ouvir “qual era a sua” ao invés de realizar deduções em meio a uma centena de prognósticos.

    Justo no dia em que havia decidido explicar a minha necessidade em definir o que estava acontecendo e meus desafios com o “meio-termo”, a fim de destrinchar qual era sua intenção com a manutenção desse inconstante manejo, infelizmente, não tive chance de viabilizar essa conversa. Não precisei. Inesperadamente, no momento mais impensável, antes mesmo que eu precisasse perguntar, tomou uma decisão.

    Você não pareceu referir-se apenas a pegação. Encerrava tudo. Ruptura. Cada vinco em seu rosto me dizia. Mas, ainda assim, eu precisava ouvir literalmente para ter certeza. Soava tão absurdo. Não conseguiu sustentar o olhar enquanto cuspia cada palavra confirmando. Fiquei boquiaberta, esperando pacientemente o instante em que tornaria a me encarar, já que permanecia de queixo erguido e olhar fixo no breu numa tentativa ridícula de me anular do seu campo de visão.

    30 segundos se passaram.

    Uma torrente de emoções preenchiam meu corpo. Primeiro, fúria. Não conseguia acreditar que você seria capaz de desprezar, acima de tudo, a nossa amizade daquela forma, como se nada significasse para ti. Observando as linhas retilíneas do seu maxilar demarcado e anguloso, quase que ferozmente puxei o seu rosto para mim, forçando-o prestar atenção no que iria dizer, meus pulmões inflaram e eu estava prestes a gritar na sua cara “Mas que tipo de decisão idiota é essa?”. Frustrante. Não consegui.

    Segunda, decepção. Sua expressão estava endurecida, como de quem fala com convicção. Decidido. Ao fitar fixamente teus olhos castanhos, minha garganta fechou. Minha fala foi entrecortada. Falei, mas não expeli o que pretendia, a mensagem presa. Sufocava. Num sussurro questionei “está falando sério?” e tu consentiu. Soltei seu rosto. Ficamos em silêncio enquanto eu imaginava ser sua hora de fala, aguardava uma explicação ou desabafo, um mísero porquê que fosse. Não requisitava uma justificativa plausível, desejava sinceridade. Queria saber o que te embasou a decidir, independente do meu julgamento sobre. Então, finalmente você cessou o silêncio torturante, “vamos embora”.

    Terceira, conformismo. Mil e um pensamentos vinham à tona, apesar de realmente ter sido pega de surpresa por seu posicionamento, não demorei em aceitar. Se é o que você quer, assim será. Não irei implorar nada. A escolha foi sua, óbvio que irei respeitá-la. Jamais abandonarei a reciprocidade, se você não quer ficar, prefiro que vá. Não me agrada ter alguém comigo por dó em face de acreditar que sinto carência ou necessito de atenção. Se para ti a nossa amizade (ou seja lá o que for que há entre nós) é indiferente, para mim esse negócio não vale a pena mesmo.

    Quarta, incredulidade. Enquanto me acompanhava a caminho de casa, o silêncio fez-se ainda mais presente. O ocorrido repetia-se inúmeras vezes em minha mente, buscava futilmente concluir qual havia sido o estopim. Qual detalhe estava deixando passar? Não fazia sentido algum querer me ver e de uma hora para outra, na mesma noite, mudar de postura radicalmente. Por que pôr um fim à nossa amizade? Claro, evidentemente eu chegaria a uma conclusão. E cheguei. Ah! Não faz ideia do quão ansiei estar enganada.

    Reconheci que o ritual havia sido quebrado, dessa vez não sibilara a mesma frase. Ao contrário, cansado das coisas não acontecerem da sua forma, jogou sua última carta. Descarregou sua frustração em cima de mim, como se ficar nesse meio fio fosse uma tortura única e exclusivamente sua. Não foi por falta de aviso, lhe disse que comigo isso não seria viável. Se ao proferir tais palavras o seu intuito foi me fazer ceder ao que havia me pedido, “deixa rolar”, acreditando que eu iria simplesmente descartar as razões que me inibiam, por temer o fim do nosso vínculo, qual sabia que eu muito valorizava, agiu como babaca.

    Ainda a caminho de casa, lhe disse que estava tudo bem e iria sozinha dali em diante. Sua despedida seca soo como partida, também não esperava nada mais que isso.

    Caminhei lentamente pelas ruas tranquilas até em casa, aspirando a quarta-feira de noite quente. Olhando cada traço a minha volta, minha mente vagava na memória dos últimos meses, dessa vez, eu via de longe, não mais narrador personagem e sim o próprio leitor. A fim de aferir se o ocorrido fazia jus ao meu desapontamento; se valia a pena a dor ou se aquela estação merecia a minha indignação concomitante com a tentativa de salvá-la.

    Infelizmente, ou felizmente, constatei coisas quais diminuíram grotescamente as chances dessa última hipótese. Se tivesse prestado atenção, há tempo já teria te exposto e esperado por mudança. Naquela madrugada eu chorei por não ter percebido tudo isso antes. Explorando algumas atitudes minhas, sequer me reconheci. Extrapolei de um modo que não gostei. No dia seguinte, me senti mal a ponto de parecer torpe. Óbvio, decidi por deixar as coisas como estavam, por concluir como o ideal e melhor para mim.

    Fui tão racional que não sofri com a ideia. A minha semana exalava calmaria e eu me sentia livre. Apesar de apreciar a tarde de domingo azul, sua madrugada foi tempestade e desde então choveram três semanas. Havia prometido a mim mesma que não “sumiria”, a quimera de cortar vínculo com alguém de modo a evitar e cessar até mesmo o mínimo diálogo possível, para mim, ao invés de ajudar a superar o ocorrido, só posterga.

    Fato, da minha parte, tempo e distância seria a melhor escolha. Fui empática, tomei banho de chuva. Mas, sinto falta do sol. Você persiste em ficar e não sabe de que forma. “Teus sinais me confundem da cabeça aos pés”, como canta Djavan. Estou cansada de te ver mudar falas e vontades de um instante ao outro.

    Agora, quando já pressentia águas passadas, você volta e sugere algo que, se não fosse aquela quarta-feira, eu provavelmente aceitaria. No entanto, eu tive um tempo considerável de chuva para repensar o que eu estava antes apta a acolher.

    Isso não vai para frente. Eu queimo em intensidade. Desta forma, quero dizer que, caso a nossa relação sofra a metamorfose que você propôs, apesar dela ser extremamente tentadora e atraente, não posso acatá-la. Pois, é indubitável que eu levaria, veria e sentiria tudo de uma maneira; enquanto você, de outra essencialmente distinta, nada intensa como a minha.

    Não me é interessante ficar só de pegação, meus “envolvimentos amorosos” nunca resumiram-se apenas a isso e não é agora que será. Esbarraríamos na reciprocidade. Não posso enganar a mim mesma, me conheço o suficiente para escancarar a alta probabilidade de me fascinar. Creio que compreende o significado. Gostar demais, eu já gosto e nem sei expôr um porquê. Não vejo coisas capazes de me prender.

    Por empatia a mim, por me colocar em primeiro lugar, mesmo que essa ruptura doa agora, não irei me submeter à uma certeira desilusão amorosa. Apesar de, francamente, saber lidar, é uma tortura emocional e psicológica longa e árdua qual não pretendo encarar novamente, justamente você (sem saber) me ajudou a enfrentar uma.

    Sim, infelizmente, ruptura, já que tu aparenta tratar como “historinha e frescura” por não compreender as minhas razões, agindo quase com desdém comigo nesse sentido.

    Tu exala incerteza e curte “meio- termos”. Comigo esse manejo não funciona. Como eu já disse, se é pra ser dessa forma, eu prefiro manter nossa amizade. Sem esse lance de efêmero e incerto. E não ouse falar novamente em “amizade colorida”, me corrói, já que não consigo me doar pela metade. Logo, engajada num “meio-termo” algo me inibe e não ajo como gostaria.

    Não me é interessante ser o “quase” alguma coisa. Tenho esse tipo de envolvimento por quem tenho intrínseco interesse em conhecer realmente. Prezo e sou atraída pela reciprocidade. Não gosto de coisas rasas. Se é isso o que você me oferece, agradeço; mas, recuso.

    Aquilo que popularmente tratamos como “ficar” com alguém, não me refiro ao contato único e súbito que temos na balada numa madrugada qualquer e sim a algo relativamente duradouro em detrimento desse primeiro, ou seja, aquele processo imediatista de conhecimento, “paquera” e “conquista” do outro; levo de uma maneira qual tu não parece compreender, e se caso compreende, não te é nem um pouco atraente.

    Justamente por pressupor isso que havia resolvido pôr as cartas na mesa (não aconteceu), antes mesmo de ti fazer tal proposta, pois, ainda que optássemos pelo desenrolar da metamorfose, em razão de nossa explicita divergência quanto a égide de vivenciar e significar essa espécie de ligação, requisito seria acordarmos como prosseguir, não seria do seu jeito e nem do meio, seria do nosso jeito. Porém, ao que tudo indica, haveria um colapso e jamais uma fusão.

    Quando estou saindo com alguém, tenho peculiar interesse em conhecer e vivenciar o outro intensamente. Sem receio, medo ou temor de me enfeitiçar. Deslumbre. Sou aquela pessoa quem convida para ir ao teatro, exposição, galeria, festival, biblioteca e até mesmo a um Café.

    Desejo um contato suave, sincero, puro; sem cobranças. Espero que aquilo a se chamar de “nossa coisa” agregue muito a cada um de nós, que nos permita transcender como ser, proporcionando um ao outro além de curtição, gozo, aventura. Independente de tratar-se de dias, meses ou estações, que seja intenso enquanto perdure. Marque, que não seja raso.

    Vai muito além de pegação, quero conexão. Uma troca de experiências, conhecimentos, gostos. Impossibilitando assim, epílogos catastróficos. Desejo momentos que jamais sejam posteriormente sinalados por frases cortantes, como “perda de tempo”.

    Assim, mesmo que, talvez, um dia não possuamos mais esse elo e até já não mais tivermos saudade um do outro, espero que as lembranças nos deixe gratos pelos momentos compartilhados.

    A ideia de duas pessoas que não mais se conhecem (somos uma constante mudança), com afáveis memórias de uma história num passado comum, me agrada.

    E essa grandeza não tem nada haver com uma amizade colorida. Acima de tudo, há sim e baseia-se numa verdadeira relação de amizade, mas não apenas. Não estou falando inerentemente de “relacionamento sério”, mas sobre ter seriedade nas decisões pensando de forma empática no melhor para consigo e com o outro. É em prol daquilo “eu tenho a minha coisa, você tem a sua, e quando nos encontramos é muito bom”. Eu gosto.

    No entanto, tu vê como “compromisso”; já eu, como “entrega”.

    Em virtude do meu jeito de viver essa forma de relação, sequer cogito ouvir um “perdi tempo contigo” ou “você me iludiu”, haja vista que jamais usarei alguém apenas para suprir meus prazeres momentâneos ignorando as emoções e, quem sabe, sentimentos alheios e até mesmo os meus.

    Não me arrependo de um instante sequer dessa nossa relação indefinida e, confesso, naquela noite, ouvir-te dizer que “perdeu tempo” comigo me decepcionou. Nem mesmo soube como lhe responder, ouvi sua frase ecoar em face ao meu silêncio. Não por escolha minha, naquela altura do campeonato, esse teu sussurro manso foi como se me desse cianeto enquanto eu imaginava experimentar um vinho branco suave. Suas reais intenções camufladas. Fiquei sem fala. Nunca me viu apenas como amiga? Nem mesmo no início?

    Pois bem.

    Como se não bastasse, curiosamente, sinto e vejo que sou eu quem vai até você. Não como se apenas eu te procurasse, como denota-se ao olhar alheio; mas, digo pelo fato de que a maioria das vezes que me chama para jogar conversa fora, eu vou. Porém, não há recíproca. Nos encontramos quando diz querer me ver e que está com “saudades”, afinal, difícil é eu não estar disposta a te encontrar. Logo, por que eu não iria? Não sou do tipo que costuma passar vontades.

    Além do mais, assim como eu, tu gosta da simplicidade. Curte caminhar pelo bairro de madrugada, ouvir música abraçado no banco da praça, conversar na calçada. Saímos, da forma que eu propus, uma única vez, planejávamos ir ao teatro, acabamos nos atrasando e passamos a noite mais gostosa de todas no Centro da cidade. Lembro do gosto da garoa, das cores vibrantes, da ventania que assanhava o meu cabelo e da maciez do brownie com castanhas.

    Esse dia foi a “exceção”. Não sei o porquê, mas as poucas vezes que te convidei para sair, não rolou e acabei por me divertir com outras pessoas. Por um tempo insisti em te fazer primeira e melhor opção, como sei que já fui a sua. Mas, quando você não se esquivava do meu convite, me dizia um “não sei”, outrora chegou a ignorar mudando descaradamente o assunto. Não foram uma ou duas vezes. Cansei.

    Ansiava conhecer lugares junto a ti, a fantasia de ter memórias em comum para recordar quando a esses tornássemos me encantava. Acho tão gostoso. Uma pena o verbo estar no passado, “fazia”. Não costumo implorar, decidi por não mais convidar; mas, ainda assim; esperava por um convite seu.

    Até hoje, não aconteceu. Já não espero.

    É ainda mais curioso que você sempre sai com seus demais amigos e adora compartilhar cada minuto virtualmente. Confesso, não me atrai nem um pouco a ideia de escancarar a vida dessa forma, não uso às redes sociais com esse intuito.

    Não me é nem um pouco importante tu expor aos outros que somos alguma coisa, é um lance nosso, uma troca entre a gente. Por outro lado, eu fazia imensa questão em sair contigo. Estranho, não é? Um “amigo” praticamente suplicar algo assim.

    Eu negava para mim mesma que você nunca quis a minha amizade. Somente eu a enxergava. Confesso, quando me dei conta, me atingiu de uma maneira nada bacana. Os dias de tempestade deixaram isso bem claro.

    Eu acreditei que você seria diferente e acabei, mais uma vez, fazendo algo que detestava, generalizações: “ele é um otário como todos os outros”.

    No entanto, nada soou mais cortante do que sua súbita fala — naquele dia da ruptura — de que, para ti, as minhas ideias me deixam menos atraente.

    Não foi especificamente o que dissestes, mas o momento em conjunto com ao que você se referiu. Apesar da sua tentativa de romantizar a frase “você é muito chata com algumas coisas. coisas que não tem necessidade de pensar e agir da forma que você faz. isso acaba tirando o brilho que eu tenho nos olhos quando olho pra você”, foi perceptível o intuito de adocicar a mensagem amarga.

    Impossível mensurar o quão me senti mal; mais difícil ainda é indicar com propriedade o que senti, indecifrável. Passei a noite revendo cada fala e atitude minha para contigo, martirizando-me. Fiquei imersa em devaneios. Acreditando que exagero em algumas coisas, que meus valores e crenças me fazem pensar demais antes de agir e, por isso, me impedem de vivenciar e aproveitar algumas situações, cogitei rever todos os meus conceitos e mudar radicalmente quem sou hoje.

    Mas, mudar por quê? Tenho horror a ideia de mudar simplesmente para agradar o outro e acabar me tornando quem deseja que eu seja, uma versão pirata de mim mesma. Jamais irei me sujeitar a algo assim, vendo-me cada vez mais distante de quem realmente sou, cada vez menos parecida comigo.

    Como aquela frase da Clarice “sou sempre eu mesma, mas com certeza não serei a mesma pra sempre”, tenho que mudar quando eu perceber sentido na mudança, quando for da minha vontade e não quando apontarem o dedo na minha cara alegando que o meu eu se faz cada vez menos cativante.

    Porém, ainda assim, de modo algum abandono o fato de que, em virtude desse meu jeito peculiar de ver, pensar e conceituar as coisas, acabo por cobrar demais dos outros; claro, preciso mudar isso com urgência, aliás, agradeço pelo alerta. Somos uma constante metamorfose, estamos, felizmente, sujeitos à mudança e eu a venero quando é espontânea.

    Sinceramente, creio que isso não deveria ser causador de conflitos. Ao menos, não nesse nível. Não deveria ser algo visto como negativo, pois evidente que não é. Eu voo e isso te assombra, já percebi. Detesta quando me imponho e escancaradamente discordo de você. É ridículo.

    No mais, trata-se de uma questão de lidar com as pessoas, elas têm pontos de vista e veem as coisas de forma distintas. Somos diferentes. Talvez uma coisa que é super importante e valorosa para ti, para mim já tanto faz. Nem por isso irei alegar que a sua pessoa se torna menos cativante ou atraente, ao meu ver, por causa do seu jeito de enfrentar e enxergar as coisas; chegando a encarar com desdém e ridicularizar seus ideais e ideias; pois, é a sua forma de lidar com a situação e eu respeito, apesar de não entendê-la. Independente de eu não pensar da sua maneira, irei tentar compreender, mesmo que ainda assim não aceite ou concorde, é nesse manejo.

    Adoraria que desde as nossas minimas às titânicas divergências rendessem longas conversas, risadas e reflexões, jamais embates. Com certeza, uma bate-papo assim poderia gerar ótimos frutos, como, por exemplo, vontade de mudança. É para que possamos conviver sem acabar por abandonar os nossos pensamentos ou aos poucos moldarmos o outro ao nosso gosto, mesmo que inconscientemente.

    Antes da ruptura, eu gostava de quem acreditei que você era e realmente estava curtindo mesmo o que acontecia.

    Concordo contigo quando uma vez disse que eu não deveria tumultuar e simplesmente deixar as coisas acontecerem. Além disso, conforme já havíamos exposto, nenhum de nós cogitava algo mais sério naquele “agora”. Aliás, ainda naquele estágio, sequer fazia sentido. Mas, deixaríamos as coisas acontecerem até onde?

    Não o único, mas o principal motivo de concluir que isto não valeria a pena, pois me renderia decepção, consiste naquela sua afirmação, que proferiu de um instante a outro sem mais nem menos, me deixando até mesmo sem graça por falar algo assim enquanto eu nunca havia proferido nada nesse sentido. “eu não quero algo sério. só vou ter algo sério mesmo quando eu amar alguém. gostar, eu gosto de você. Mas, o nosso ‘elo’ não significa algo a mais que desejo”.

    Agora, depois que enfrentei a ruptura, você chove e retorna agindo como se todas essas coisas não tivessem acontecido. Jogando fora as partes negativas — que demorei a perceber — e supervalorizando o altos.

    Como ousa me fazer tal proposta? Além de não ser o que desejo, o que me satisfaz, ela é tardia.

    Mediante tudo que expus, como acha que posso mergulhar nesta? Ter esse tipo de envolvimento com um cara que sequer cogita a ideia de ter um laço mais forte comigo.

    As coisas são tão inconstantes e voláteis, tu alega com convicção que não quer desde já, é bem diferente de não querer agora. Não curto criar expectativas e idealizar projeções, mas, não descarto qualquer hipótese, em meio ao emaranhado de fatores alheios a nós, é um tiro no escuro fazer convicções quanto ao futuro. Devemos vê-lo como uma ponta solta. Um leque de possibilidades.

    Sabe o que parece? Que tu acredita veementemente naquela ideia da conhecida frase “se é pra ser, será” e atrela aos astros, destino ou ao universo a íntegra responsabilidade para a união das pessoas. Chega a ser cômico, já que tu zombava a mim por acreditar no destino e em “sincronicidade”.

    No entanto, até mesmo eu tenho ciência de que independente de tudo, somos nós, seu idiota, que escolhemos ficar juntos. O universo jamais irá impor algo assim, uma vez que isso depende também da nossa vontade. Ele pode viabilizar; mas a decisão é unipessoal, já que está condicionada ao nosso querer.

    Para alguém que aparentemente leva tal frase como um mantra, se contradiz ao alegar com seriedade (não somente uma vez) que não quer, nem imagina e trata como “improvável” uma relação mais intensa e intrínseca comigo. Um perfeito contraste com a minha maneira.

    Cara, eu não sou idiota. Não importa o quanto, agora, exponha coisas como “eu estava cego” e coisas assim. Faz um exercício, compara suas atitudes e as coisas ditas na ruptura com a sua proposta de agora. Sua contradição é torturante.

    Como se não bastasse, essa coisa toda. Esse “meio-termo” que existia e até mesmo esse novo “tentar” que me propõe não me agrada. Acredito que essa estranha relação chegou numa proporção que não dá mais pra “ficar”.

    Isso sem contar que não foram um ou dois conhecidos que me questionaram sobre o que rolava entre a gente; provavelmente por estarmos vez ou outra juntos. Sequer sei como surgiu mas já nos viram até como “parceiros”, até minha família já pôs isso em xeque.

    Outras pessoas veem algo que não existe e não existirá. Você, por vez, tem a audácia — depois de tudo — em me propor nova relação indefinida; enquanto eu estou fadigada com essa coisa toda.

    Cumpre esclarecer que em hipótese alguma me importo com o que as pessoas com as quais não detenho vínculo afetivo falem ou pensem ao meu respeito. Juro.

    No entanto, quando os rumores sobre “estarmos juntos” começaram, mencionei contigo e me disseste para não dar atenção e caso tornassem a questionar-me a respeito, deveria afirmar e dizer “e daí?”. Logo, o assunto se espalhava entre conhecidos, que ainda insistiam em me interrogar, e eu já não sentia mais necessidade de comentar com você. Pois, diferente do que me pediu, eu simplesmente negava; vez ou outra ignorava (nossa relação que a época se moldava não detinha sequer traços de definição).

    Porém, quando foi a sua vez, quando alguém do seu círculo de amigos citou o meu nome e colocou “companheira” na frase, imediatamente descartou o pensamento anterior. O fato de você me interrogar para aferir se eu estava “falando algo”, mostrou que você se importa e muito. Ao cogitar que eu teria dito ou criado uma relação que não existia, deixou isso ainda mais saliente.

    A primeira coisa que me veio à mente foi “Mas que tipo de pergunta idiota é essa?”. Por qual razão, motivo ou circunstância eu faria algo do tipo? Poxa, não tenho mais 12 anos. Não exitei, não fico calada, tu sabes que quando algo não me agrada falo imediatamente e espero compreensão e empatia para que não se repita.

    Eu me senti imunda. Você agiu de maneira desprezível. Eu te detestei com força naquele momento. Até mesmo gargalhei incrédula. Você deveria ter levado aquilo como um elogio. Deveria ser razão até mesmo para se engrandecer.

    No mesmo instante lhe disse como me senti e as coisas que pensei a seu respeito. Está enganado se imagina que ao me cortar (de qualquer forma) eu irei ficar calada e aguentar a ofensa sem jogar na sua cara a atitude desprezível. Jamais terei receio em dizer com todas palavras o que me causou por temer como irá se sentir. Pois, se ao falar e/ou agir tu não foi capaz de pensar em mim para evitar me magoar, por qual razão eu não poderia fazer o mesmo justamente por pensar em mim mesma?

    É como a seguinte frase: “cuidado com aquilo que você tolera, pois você está ensinando como as pessoas devem te tratar”. E, definitivamente, eu não mereço ser tratada assim.

    Enfatizei ainda que detesto a ideia de estar com alguém que pretende tudo as escondidas. Como posso conviver com alguém que sente receio e atribui importância às conclusões precipitadas de terceiros a nosso respeito? Espero que esse seu temor não tenha nada a ver com a minha pessoa, pelo meu eu, por quem sou. Aliás, se pesarosamente for, não faz ideia do tamanho do meu repúdio. Me faz ter ânsia de vômito só em pensar algo tão esdrúxulo.

    Incrível como você consegue ser antagônico! Não apenas em noites frias e quentes, mas até mesmo sob a chuva, instante não só caminhava de mãos dadas comigo, como também abraçava e beijava-me, na frente de todos e quando eu alegava timidez, ao perceber olhares curiosos, tu me dizia “jamais me importaria de me verem com você. aliás, deveria fazer o mesmo”; num outro triz, retrata o oposto.

    Apesar de se esquivar das minhas escusas, alegando não ser por causa da minha pessoa o seu aborrecimento com o episódio, isso não importa, não muda os fatos. Por uma questão lógica, é óbvio, se você se incomoda, é claro que irei me incomodar. Além do mais, entre nós, seria devaneio aspirar o meu jeito de “ficar” ou uma trégua, posto que seus pareceres e cobiças revelam-se flutuantes. Ambíguos. Inconstantes.

    Você não sabe o que quer, desde aquele rompante, até então, demonstrou instante arrependimento da decisão, depois querer manter a amizade, posteriormente ansiar a metamorfose e logo em seguida voltou atrás elencando a manutenção do “meio-termo”; é uma tortura.

    Além do mais, não pode simplesmente hora “estar afim” e outrora não, acreditando e esperando que vou adentrar nessa de sempre estar à sua disposição e me submeter à um naufrágio.

    Quando você me chama, eu vou; mas, quando eu te chamo, você não vem. Faz-me sentir alguém que apenas convém, quem intima quando está entediado ou não há nada melhor para fazer, ou seja, o conhecido “tanto faz”. Não gosto. Não me cativa.

    Não sou hipócrita a ponto de descartar os motivos que você expôs (depois que muito insisti) que embasaram o seu primeiro posicionamento, me fez pensar que “o que eu te dei foi muito pouco ou quase nada”, como canta Nando Reis. É justamente o contrário, compreendi totalmente e te expliquei sobre não saber lidar com “meios-termos”. E foi o que te levou a propor definirmos a situação, mas, se é pra mudar e eu me sentir daquela maneira, não vale a pena.

    Me abri e tentei ser o mais clara possível sobre o meu modo de levar esse tipo de envolvimento, com o intuito de te fazer também perceber que vemos e lidamos de forma discrepante, principalmente ao reconhecer que estavas fazendo confusão ao não entender as razões pelas quais da sua maneira para mim esse “lance” não seria possível. Afinal, pretendia com isso o surgimento de um pacto, pautado na conciliação. Não foi novidade isso partir de mim, era de se esperar, prezo pelo diálogo sincero, não lêmos mentes.

    Pena que após fazê-lo, tu apenas disse “entendi”, nem mais, nem menos. Posteriormente, ousou tornar no assunto e fazer breves comentários discordando de alguns pontos sem profundas explicações. Fui paciente e respondi às suas contestações e sou grata por ter me ouvido, realmente disposto a compreender.

    Porém, chegou um instante em que me senti tola, era evidente a minha intenção com aquela conversa. Mas, era evidente também que tu não estava disposto a ceder, seria do seu jeito ou não seria nada.

    Deduzi à medida que ficava silente perante as minhas perguntas; embora me ouvisse, pouco falava; ao indicar as divergências entre as nossas maneiras e os motivos pelos quais sua proposta como cláusula pétrea para mim não fluiria (explicitei as possíveis consequências), fez-me pergunta sobre outro mérito, desviando sutilmente o assunto; ao apontar como me senti perante algumas falas e atitudes suas (sujeitando-me à alegações precipitadas), disse somente uma vez “não quis transparecer isso” e não fez objeções quanto às demais.

    Sim, me senti tola, como se fosse a única a desejar a sanar os vícios e pormenorizar os erros do nosso vinculo.

    Nas últimas semanas, tivemos a mesma conversa inúmeras vezes, até mesmo após diálogos curtos, me deparava retomando o mesmo assunto todos os momentos que você interrogava uma fala ou atitude minha, apontando que estou agindo diferente.

    Inacreditável você portar-se como se nada tivesse acontecido, pior, permanecendo com as mesmas falhas que me deixam cada vez menos seduzida pela proposta que me fez. Não sei como teve coragem, mas, ainda ousou em cobrar reciprocidade de mim, no seu lugar, eu teria vergonha.

    Incrível você não perceber que minhas ações são reflexos das suas, precisando da minha indicação de um por um dos fatos que embasaram minhas conclusões e meu novo modo de agir. Sou espelho. Francamente, é exaustivo precisar te lembrar de tudo que já expus. É cansativo e detesto ser repetitiva.

    Além do mais, tenho a sensação de que falo em vão, já que ao responder sua acusação, creio que por não ter o que dizer e, por via, concordar com o meu parecer, responde “okay”. Tivemos uma série de conversas que não nos levaram a nada, tudo permanece conturbado.

    Em virtude não só disso, mas também de tudo que apontei antes e principalmente por constatar que não chegaremos à concórdia, já não faz sentido prolongar. Aliás, confesso, acaba por ser uma pressão torturante em cima de mim. O que eu quero? Não, mas o que devo fazer e lhe peço é para continuarmos com nossa amizade numa boa. just it. Não é a primeira vez que te peço isso, sinceramente, ensejo que dessa vez respeite e não finja que nada falei ou decidi. Torço para que entenda.

    Francamente, não sei se estou pondo uma espécie de ponto final em algo que nem sei se começou. Infelizmente, nem tudo que envolve outro alguém pode ser do nosso jeito, ambos precisam estar dispostos a ceder e não apenas um; soa terrivelmente como manipulação ou submissão, me estremece.

    Delírio? Jamais. Ainda assim, seja lá o que for que eu esteja fazendo, agora, faço com imenso pesar. Juro que almejava algo integralmente diferente, ansiava imensuravelmente mais. Não é porque tu tomou decisões e agiu de modo que me desagradaram que passo a te odiar ou repudiar; mas, por outro lado, não sou ingênua ou otária a ponto de ignorar ou esquecer que pisou na bola comigo me proporcionando dias de inquietação emocional e psicológica.

    Justamente por tal, faço questão que tome conhecimento disso e não tenho ressentimento algum em frisar este fato caso torne ao assunto. Aliás, também sei que vez ou outra tomei atitudes que te chatearam, apesar de você preferir ficar silente na maioria das vezes.

    Sinta-se a vontade para desabafar comigo a respeito, podem haver coisas das quais não me dei conta e não pude me desculpar ou explicar, assim como muito do que escancarei aqui pode sequer ter sido alvo de sua percepção.

    Vale ressaltar, expus parte da minha percepção sobre a nossa crônica. Exibi, latentemente, meramente os fatores que me chatearam e embasaram minha escolha.

    Sei que muitas vezes minhas falas podem parecer incompreensíveis. Não sei como me salvar do caos em minha mente. Esta foi a minha versão da verdade, como captei a realidade. Qual é a sua? Não sou a dona da razão, ninguém é. Não descarto a possibilidade de estar equivocada quanto uma minúcia ou outra. Adoraria um retorno seu. Não sinta-se obrigado, a nada. No entanto, é certo, mesmo que eu não queira, levarei o silêncio como anuência às minhas conclusões e decisões.

    Eu nāo queria que esse fosse o nosso Agora.

    Ps. Me desculpa por sempre me prolongar, sei que é um porre. Não consigo evitar.


    Janaina Couto ©
    [Publicado — 2019]

    @janacoutoj

  • [Cartas] PROFALÇAS

    Planejava te escrever sobre a imensidāo do que você e o “agora” significam para mim… mas, farei isso em outro momento.
    Juro, chega a ser surreal como tenho dificuldade em transcrever para o papel os meus sentimentos - puros, nus e crus - é muito diferente de criar ou inventar um enredo.
    A grande questão é que, se tratando da realidade, qualquer coisa que eu escreva soa absolutamente ridículo se comparado ao que pulsa aqui dentro…
    Eu desejei escrever algo diferente, o mais singelo e sincero que conseguisse. Me desculpa por nāo ser nada objetiva:
    Meu bem, desejo que essa seja a sua melhor idade! Esse, o seu melhor ano! Que você vivencie as aventuras mais malucas, as experiências mais gostosas, que se permita reinventar e arriscar!
    Sei que muitas coisas há de encarar sozinho, mas quero vivenciar contigo muitas delas… pode ser cedo, mas, quero dividir parte da minha vida com você. Anseio muitos dias tranquilos sentido o sol queimar nossa pele...
    A nossa coisa é nova, mas, desde já, sei que serei eternamente agradecida por cada beijo, pelos conselhos, por cada abraço, pelos instantes de riso, pelos olhares serenos, pelas falas apaixonadas… por cada microsegundo, pela intensidade, por isso que me proporciona sentir.
    É surreal como as horas contigo correm, teu sorriso me desmancha, seu abraço me aquece, seu olhar me desmonta e teu toque me arrepia. Obrigada por tudo isso.
    O aniversário é seu, mas é meu o prazer em dividir esse dia com você. Jamais esqueça o quanto se tornou especial para mim.
    Você é um cara incrível, nāo estou falando que é perfeito - ninguém é; mas, eu vejo os seus 'defeitos' e ainda assim, vejo muito do que eu quero… com quem desejo estar.
    Me encanta o homem que vejo em você.. muito mais que um rapaz bonito com jeito de inconsequente. Independente, forte, inteligente, protetor… astuto. Gosto do teu jeito peculiar de ver algumas coisas... Me amarro na sua personalidade.
    Psiu, jamais perca sua essencia… sempre mude para uma versão melhor de si mesmo!
    Te desejo muitos picos de felicidade, em todas as suas formas, cores e facetas! Claro, a consequência de viver é errar, tentar, acertar, chorar, sorrir, amar... ninguém é perfeito ou feliz, haja vista que é impossível atingir o pleno estado de felicidade. Isso mesmo, a felicidade bem como a tristeza sāo momentos, instantes. A felicidade está nos microsegundos, seja quando alcança uma meta, quando toca, quando ouve sua música preferida tocar na rádio, quando se sente bem consigo mesmo, quando num abraço se sente em casa ou simplesmente quando na monotonia do cotidiano se dar conta de que é capaz de amar e é amado. Nāo use parâmetros para a "felicidade", viva intensamente e "seja feliz" do seu jeito de ser! Viva ao invés de sobreviver!
    Que cada dia teu seja único, intenso, sempre norteado de muito amor — espero te proporcionar para além disso! Que a cada ano que passe, você conquiste seus sonhos e descubra novos desejos. Que você olhe para os dias que correram e sinta orgulho do que viveu. Tente levar a vida sempre numa boa, usufruindo ao máximo das coisas mais bonitas e singelas!
    Espero que você possa sempre evoluir como ser humano, nos seus ideais de evolução. A cada estação, uma versão melhor de você. Quero a cada estação, uma versão melhor nāo só do "eu e você", mas também do 'nós’.
    Te desejo as melhores coisas do mundo, só nāo sei se serāo o suficiente para o Universo que vejo em ti.
    É hora de se despedir do velho garoto e desejar boas-vindas ao homem que está construindo.
    Não sei se é cedo para falar que sinto o mundo por você. Mas, já não importa os meus velhos conceitos. Eu sinto. Sei que sinto. Quero que jamais esqueça isso!
    Não queria usar o clichê "eu amo você", mas, se trata disso.
    Ps. Nesse instante eu estou te abraçando calorosamente e lhe dando um beijo, puro… quero que sinta isso.
    Com amor,
    Beijos,
    Jacarandá.
  • [Cartas] SÚPLICA

    [Cartas] SÚPLICA

    Desde abril os meus dias estão sendo insanos.

    Passei dias consideráveis matutando a estação. Sobretudo, imersa na gana de “voltar a ser quem fui”.

    Foi a estação em que me desmanchei. Acredito que foi a primeira vez que me desfiz. Sempre soube que se trataria de um longo processo de conhecimento, questionamentos e encontro do meu “eu”. Só não fazia ideia do quanto longínquo e invasivo poderia ser.

    Na realidade, ainda enfrento todo esse caos. Busco paz e calmaria no meu exterior na fútil tentativa de amenizar toda a perturbação que vigora no meu interior.

    Foram dias que correram, a primavera chegou e o meu pensamento ainda sente os dias quentes e ensolarados do verão. Eu estagnei no tempo. Vivi um dia de cada vez e o tempo escorre por entre as minhas mãos.

    Todo esse processo de desconstrução é doloroso, me vejo descartando todas as minhas certezas, verdades e convicções anteriores. Já não me resta mais nada.

    Constateio quanto tudo é necessariamente volátil. Me deparei descartando o meu crer e muitas coisas que supervalorizanva. Não bastasse, sopesando valores e principois, eis que em muitas situações estavam em confronto uns com os outros. Foi árduo constatar que não ha como ser estática e se posicionar sempre da mesmissima forma. Me senti, nestes instantes, traindo a mim mesma. 

    No princípio de tudo, quando soube que dias de ainda mais inquietação emocional e psicológica viriam, pensei comigo mesma “Estou pronta, preparada. Aguento.”. Eu fui derrubada na primeira onda.

    O Universo ouviu as minhas preces. “Se é verdade que o tempo sana tudo, Deus, como eu anseio que ele passe”. O tempo escorre e mais uma falsa convicção cedeu. Afinal, a ferida já não sangra, mas as cicatrizes permanecem, vívidas e ainda sinto a minha pele arder até mesmo com o toque mais sutil.

    Já não sei o que fazer, por onde começar, tão menos se estou no “caminho certo”. Aliás, já nem sei mais se existe isso de “o caminho certo”. Só espero com veemência que os frutos, resultado ou seja lá o que for que todo esse transcurso de tempo irá me suscitar, não seja vão. Outrossim, sequer sei se há como algo ser completamente vão.

    Estou perdida e quero me encontrar, se trata disso. Não faço ideia alguma de como restaurar, juntar ou modelar cada um dos meus pedaços. Arrematar as minhas frestas. Não raramente, fico presa no mesmo questionamento “O que será de mim?”.

    A única coisa que reconheço é o meu nome, nem mesmo a minha própria idade eu posso afirmar com convicção, afinal, não se tornou incomum não me identificar com os vinte e tantos anos. A cada uma das mudanças de coloração até o finalmente cair das folhas, aquela velha mania se fez ainda mais presente. Houveram dias em que me vi com 12, 16, 20 e até mesmo com 40 anos.

    Em muitos instantes, me vi e me senti “mulher’, nos exatos termos da palavra. Por sua vez, outros dias tudo o que desejei foi um abraço apertado, um beijo no rosto e alguém que me preparasse um chocolate quente ao me dizer mansamente para não temer os trovões.

    Ao decorrer dessa metamorfose, confesso, alguns dias foram gostosos. Principalmente, aqueles em que me vi mulher. Não só me vesti de acordo, colocando roupas que valorizassem o meu corpo e me doando numa maquiagem com potencial para fazer me sentir ainda mais sensual… eu literalmente incorporei a personagem. Não faz ideia do prazer que é se vê atraente, inteligente, matura, sedutora, dona de si e dotada de uma satisfação desmedida com o seu “eu”.

    Nesses dias, saí na noite vazia e apreciei a minha companhia. Sozinha, vislumbrei a grandeza do meu eu invadir o mormaço de cada uma daquelas noites. Sou grata a estes momentos. Grata a mim mesma por transbordar e me proporcionar sensações incríveis, sendo eu mesma o motim. Aliás, acredito que as garrafas de vinho tenham ajudando a intensificar cada segundo.

    Foram sobretudo no decorrer dessas noites que frases e sensações efêmeras me invadiam quando o meu sentir caia nos dias que correram. E eu dizia a mim mesma alto e em bom tom “Como você pode convidar alguém a entrar no seu mundo e deixá-lo fazer essa balbúrdia? Esses e tantos outros pensamentos cortantes me fizeram reconhecer a razão pela qual uma das facetas a ser tratada nessa árdua transição não havia tido sequer uma minúcia de organização. Tudo permanecia exatamente da mesmíssima forma.

    Toda e qualquer coisa em remetia e ele e todos os espaços que ele outrora preencheu permaneciam com lacunas ou ainda com resquícios de confusão. Como pude ser tão tola? Todo esse tempo esperando que ele viesse preencher os espaços ou ao menos organizar a bagunça, quando na realidade ele só não viria, como também aquilo competia a mim. Eu mesma e mais ninguém.

    Vivi dias consideráveis com essa gana. Vivi um dia de cada vez. Não me privei de chorar, gritar, questionar. As minhas emoções ficaram à flor da pele e eu me rendi a elas. Mergulhei em cada uma delas. No entanto, o meu pensar estava preso no verão. Não me dissociei do passado e o meu agir foi pautado em dias que já deviam estar empoeirados.

    Os dias correram, vivi um de cada vez, mas sou incapaz de afirmar que não tenha tido frenesis do verão. Sempre acreditei que estagnar algo no tempo seria belo, no entanto, consiste em mais uma das minhas falsas certezas que foram nesses dias desmistificadas.

    É um imenso pesar assumir que, apesar de tudo, ainda estou presa ao passado. Isso explica o tempo escorrer. VIvi os meus dias olhando para os alvoreceres findos. Acredito que daí surja a sensação de que estou perdendo algo. Convivo com essa percepção e tenho uma desconfiança medonha, sobretudo, um temor em estar certa, de que a minha perca se trate do “hoje”.

    Sim. A desconstrução é tenebrosa. Por constatar cada detalhe que futilmente passei tempo demais desejando “voltar a ser quem era”. Implorando para voltar a ser quem fui antes da ruptura, do caos… antes dele.

    Sempre tratou-se de um raciocínio simples para constatar a impossibilidade que essa frase elucida por si só. Como posso voltar a ser a mesma pessoa que fui nas estações passadas se estamos em constante mutação? Se as experiências que tivemos constrói e molda quem somos? Não tenho como apagar o passado, tão menos me dissociar dele. Aliás, vivi coisa inesquecíveis, desde as mais bonitas às mais incisivas.

    Outrossim, foi um amor repleto de primeiras vezes. Primeiras vezes não se repetem. Aquele verão faz parte da minha história. Seus reflexos e feixes esculpem o meu agora. Sou incapaz de voltar a ser quem fui principalmente antes do naufrágio, o princípio de tudo.

    Aliás, outro ponto ainda mais óbvio é o fato de que a minha rotina, os meus gostos, as minhas experiências, preferências e anseios eram outros. No decorrer do nosso contato, experimentei/provei coisas novas. Em razão de tanto, minhas preocupações e olhares voltaram-se para trechos e formas que antes passavam por mim despercebidos e não tinham qualquer importância. Digo isso, sobretudo, quanto a mãos, corpos, bocas, jeitos e perfumes. Hoje, já não deixo de repará-los, é inevitável, ganharam minha atenção e não há nada que possa ser feito.

    São coisas infindas. Posso pormenorizar cada um dos motivos pelos quais não tenho como voltar a ser quem fui e sim simplesmente me “renovar”. Renovar… acredito que essa palavra faça mais sentido.

    Porém, apesar dos pesares, posso dizer francamente que jamais irei te perdoar por ir embora levando aquele meu encanto. Eu gostava tanto dele e não faz ideia do quanto sinto saudades. Me desconstruí para me renovar, para caçar o meu encanto que está dormindo em algum cantinho, e esse processo é a coisa mais insana que havia enfrentado desde então.

    Já não sei o que quero, quem sou. Desconstruí não só as minhas verdades, como também todas as minhas percepções de mim mesma. Já nem sei a razão de mais nada. Me doo para inúmeras coisas e já nem sei o porquê, tão menos se o que desejo para o amanhã faz jus e depende dela. Não sei o que merece minha doação. Nem sei se a minha entrega é o bastante, fico presa na linha tênue entre o “eu me cobro demais” e o “eu não me dedico o suficiente”.

    Tratando-se de uma vertente ainda mais intrínseca, descobri que fiz muita das coisas que outrora havia dito “jamais” e que também agi de maneiras que hoje me surpreendem me causando tamanha admiração. Refiz meus passos, vi com distância meus posicionamentos, falas, jeitos e andados… hoje, muitas vezes acatei e compreendi a verdade do outro lado.

    A grande questão é que agora habitam nove pessoas em mim. E não me refiro a cada uma das versões de mim mesma. Não são facetas de um mesmo eu. São nove mulheres com gostos, valores, desejos, verdades, tesão, posicionamentos e anseios distintos. Aliás, não raramente, estão em confronto uma com as outras. Já não me é novidade o “eu contra si mesmo”. Me vejo o “sim” e o “não” na mesma pessoa. É surreal.

    Obrigada por me mostrar, da pior forma, que o trono do meu reino pertence a mim. Devo desculpas a mim mesma por ter delegado a ti todo o poder de sustento do meu “eu”. Jamais devia ter lhe dado o aval para imperar. Não serei injusta, você não foi um tirano.

    Ainda assim, sou realmente agradecida pelos dias, momentos e segundos que me cuidou. Não sou hipócrita e nem serei ingrata, foi uma delícia enquanto a sua intenção era me cuidar e ficar.

    Você chegou, assumiu o trono e transformou todo o meu eu. Uma pena que tenha ido embora e me devolvido o império após tê-lo usado de tal forma a ponto deixá-lo devastado. Me devastou de tal modo que após a sua partida não mais me reconheci e torci fervorosamente para voltar a ser quem fui antes de você me aparecer. Antes de eu me apaixonar e fazer teu o meu corpo, o meu sentir e o meu eu.

    Travo uma batalha para me refazer. A desconstrução não foi uma escolha, foi crucial. Afinal, após o caos, me vi uma versão pirata de mim mesma.

    Porém, de mansinho, ainda que lentamente, estou lidando… outros dias, confesso, suportando. Estou deixando para trás as migalhas do meu sentimento por você que há muito tempo foi esfarelado. Sobretudo, felizmente, me encontrando, conhecendo esse meu novo “eu” e lidando com as mulheres que em mim habitam. Após infindas transformações, Cosendo cada uma das minhas frestas. Ainda bem.

    Estou cada vez mais próxima de ocupar o meu trono. No final das contas, essa é a única coisa que eu te peço, imploro… suplico, por favor, não volte. Nunca mais.

    Janaina Couto ©
    Publicado — 2020

    @janacoutoj

  • [Cartas] TENTAÇÃO

    Você é a mulher mais foda que eu já conheci. Você simplesmente é foda. E, Deus, eu já conheci tanta gente.
    Você é única.
    Gosto da forma que fala, por mais que às vezes eu reclame da presença de todo esse juridiquês e do uso de infindas palavras para algo que poderia ser dito em apenas cinco.
    Juro, sou fascinado nesse teu jeito. Uma pergunta vira uma reflexão e uma análise esmiuçada sobre seja lá qual for o tema. Gosto disso. Interesse, curiosidade. Te torna uma mulher tão sexy. Caralho, não faz ideia de como eu amo conversar contigo. A literatura não tem uma palavra pra descrever isso ainda.
    Me amarro no teu jeitinho de falar. Toda acelerada. Sempre conta o que têm a dizer com uma empolgação que não sei donde vem. Usa todo o fôlego e a sua hora de fala sempre se desfecha com um suspiro. Acho incrível como diz com emoção.
    Você é inteligente pra cacete (muito plausível já que passa a maior parte do tempo nessa doação). A sua inteligência transcende. Você tem uma puta mente aberta, seja para conhecimento quer seja para sentimentos e até mesmo ações. Pensa muito bem sobre algumas coisas. Sabe se portar conforme as situações. Nada te passa despercebido.
    Quando estamos juntos fico pensando “que mulher”. Confesso, dou uma viajada.
    Não bastasse, parece ter uma opinião formada sobre todo e qualquer assunto. E quando não conhece a respeito assume “sou completamente leiga, me explica”. Lembra do que disse sobre as várias formas de inteligência? Pois bem, acho que esse tipo de coisa tá no pacote. Você é surreal.
    Não importa a situação, o contexto ou a conversa, tu muda o espectro da coisa de uma forma incrível. Aliás, sem tirar a essência do que é basilar.
    Me encanta o quanto é precisa. Sabe o que gosta, diz de boca cheia o que acredita que precisa ser mudado, não tem receio em dizer não. Adoro o seu falar cheio de convicção.
    Quando se posiciona diante de uma situação, fala com propriedade. Prende a atenção de qualquer pessoa. Eu te vejo uma deusa. Você me possui.
    Você é uma boa observadora. Capta o clima, percebe quando algo está incomodando. Leva como máxima aquilo de “não lêmos mentes”. Para ti, tudo se resolve com uma conversa. Prioriza dirimir as coisas de imediato, no instante exato que constata o problema, pois tem horror a ideia de que ele se propague no tempo. Têm pavor à dissimulação e detesta mentiras, razão pela qual é serena, franca e sincera ao extremo. Valoriza a verdade, ainda que ela seja cortante.
    Gosto como se põe no lugar do outro. Sopesa as coisas. Ainda que convicta dos motins de cada um de seus posicionamentos, tornando-os devidos, acreditando ser a “dona da razão”, vê os dois lados da balança. Aliás, não tem medo em acatar a visão do outro. Não têm receio em pedir desculpas e quando faz é de coração. E ainda assume quando “estava completamente equivocada”.
    Você é de verdade. Sempre.
    Conheço cada uma das tuas versões de si mesma, principalmente a amiga, a escritora e, óbvio, a companheira. Não constato falha, executa muito bem os seus papéis. Como?
    É fortemente determinada e nem se dá conta.
    Não importa o âmbito. Estudo, família, trabalho. É incrível como consegue lidar. Traça uma rotina. Os determina como prioridade. Você não se sabota nesse sentido.
    Determinada a ponto de não se permitir espairecer. A ponto de abrir mão das coisas simples que gosta de fazer sozinha e para si mesma… ler na praça de madrugada, por exemplo. Confesso, acredito que precisa de uma pausa para si mesma. Um respiro. Vai devagar, meu bem.
    Você é forte e ainda assim consigo reconhecer boas fragilidades. Tem grandes sonhos e valoriza as coisas simples. Tem uma forma peculiar e poética de ver a vida. Para ti, todo e qualquer momento encaixa com uma canção. Aliás, tem gosto musical incrível. E, claro, você é a minha escritora preferida. Me fascina o quanto é boa com as palavras. Sobretudo, a sua facilidade em elucidar nos exatos termos os teus sentimentos.
    É uma mulher imprevisível. O que me assusta, pois não consigo te desvendar. É uma gana incessante, mas gostosa. Não quero saná-la, eis que no final das contas você acaba me surpreendendo de um jeito maravilhoso.
    Você é extremamente amorosa. Obrigada por isso.
    Você abre esse seu sorriso bobo quando me olha eu me quebro. Adoro seu olhar penetrante e misterioso, ainda mais quando é voltado para os meus. Quando me beija sem eu pedir ou quando faz qualquer coisa em mim quando estou distraído, até mesmo o teu toque suave mais sutil, eu amo.
    Eu poderia listar o que acho bonito só em você e jamais iria exaurir o rol.
    Você é educada, sincera, honesta.
    É uma excelente ouvinte.
    Adoro o quanto é compreensiva.
    São coisas que eu admiro muito. Aliás, ressalto que não se trata apenas de mim. Questione qualquer outro alguém. Todos possuem a mesmíssima percepção de você. Tenho certeza que aqueles que já conviveram contigo, ainda que pouco, te perceberam assim.
    Me corrói a forma que você se vê. Não sei a razão para baixa autoestima ou mesmo a sua depressão pós alimentação só porque comeu uma besteira. Tão menos a sua bipolaridade quanto a percepção de si mesma. Não entendo o que te faz alucinar para se vê insuficiente, tão menos o temor de não conquistar os seu sonhos. Mulher, esse mundo já é seu. Você é um universo inteiro.
    Você é intensa.
    Você é atenciosa.
    Simpática, engraçada e boba. Dá risada de qualquer coisa.
    Não bastasse todo o exposto, você é uma mulher extremamente atraente. Fisicamente linda. Gostosa. Sensual.
    A sensualidade é a sua característica mais marcante, para mim. Está presente na sua forma de se mexer, olhar, falar. Me intriga como você consegue ser sensual até mesmo quando está lendo. Eu te vejo caminhar em minha direção ao som de “Mild Orange — Some Feeling”.
    Se a perfeição tivesse forma humana, eu seria capaz de ver cada um dos teus traços nela.
    E justamente por isso me atormenta ouvir “Arctic Monkeys — I Wanna Be Yours” quando estou longe de você.
    “Me encanta a sua inteligência.
    Me encanta a sua empatia.
    Me encanta a sua força de vontade.
    Me encanta a sua forma de lidar com certas coisas.Venero o jeito que trata a sua família.Honro a sua confiança em mim.
    Honro a forma como me tem.
    Honro como se faz nua e crua.
    Honro a sua doação.Gosto dos seus olhos e como eles me vêem e me encaram.
    Gosto do seu sorriso e como sorri para mim.
    Gosto do seu cabelo volumoso e brilhoso, ondulado, liso, cacheado… em você tudo fica perfeito.
    Gosto do seu estilo autêntico.
    Gosto do seu andar.
    Gosto da sua forma de falar.
    Gosto do timbre da sua voz.
    Gosto dos seus pés delicados.
    Gosto do seu nariz pontuadinho.
    Gosto da suas mãos.
    Gosto do seu pescoço fino.
    Gosto das tuas costas.
    Gosto da tua pele macia.
    Gosto do teu cheiro.
    Gosto da tua boca rosa, cheia.
    Gosto das tuas intenções.Amo seu beijo.
    Amo teu suspiro.
    Amo seu toque e em como ele me faz arrepiar.
    Amo o envolto do seu abraço.
    Amo você do princípio ao fim e isso é muito gostoso de sentir.”
    Precisaria de mais algumas horas para pormenorizar cada um das tuas frestas.
    Sim, estamos juntos pra evoluirmos de uma certa forma. Óbvio, vejo algumas coisas em que você pode melhorar. Acredito que ser mais discreta em alguns lugares é uma delas, mas, isso será difícil, como tu mesmo diz, você é um escândalo de mulher.
    Vu só? Por questões óbvias e razões infinitas eu sou doido por você. Você é aminha tentação.
    Quando estou contigo só penso em te abraçar, te sentir, te beijar. Sou fascinado e você parece não se dar conta. Meu pensamento sempre está em ti. Sempre, inclusive agora.
    Percebo que me coloca dentre as tuas prioridades e eu faço o mesmo contigo. Você está comigo de verdade e eu gosto disso demais. Você é muito foda e está sendo foda comigo. Eu só quero ficar com você, permanecer aqui. AMO a nossa troca.
    Independente do que aconteça no relicário imenso desse amor, eu vou permanecer aqui com você, enquanto for da sua vontade.
    O que pulsa em mim é algo inexplicável. Sinto o mundo, o universo por você.
    Com amor e carinho,
    seu “mais insano e desmedido amor”.
  • [Conto] DEDO PODRE

    Naquela manhã de sábado quente, acordei questionando se realmente deveria ir à festa com o meus amigos. Será que vale a pena, já que o garoto mais insuportável do mundo vai estar lá? Realmente não sei. Sinto-me encurralada, a galera está falando da tal noite a semana inteira e os meus amigos me pressionam para dar uma resposta boa, tipo: “É lóooogico que eu vou!”.

    Na realidade, o pessoal acha que é frescura da minha parte, mas ninguém reconhece o quanto ele é infantil. É um porre. Como ele pôde? Até os meus amigos parecem fechar os olhos ao que ele fez. Se atreveu a me fazer passar vergonha em meio a todo o colégio! Aff. Neste exato instante, dizer que o odeio não me parece nem um pouco exagerado. Babaca!

    Foi inevitável, passei a tarde refletindo: será que conseguirei me divertir com a presença daquele ser tão insuportável e imaturo lá? Fala sério, parece que sou um imã de gozação dele. Pensar nisso é uma tortura.

    O cara realmente é um idiota. Sinto-me envergonhada só de lembrar da última que ele me aprontou. Jamais esquecerei o dia em que estava enfezada e o imbecil veio dar uma de que era simpático, o engraçadinho foi logo perguntando o que eu tinha; eu, trouxa, como sempre, fui sincera e disse estar decepcionada por ter engordado 5 quilos. Óbvio, de modo algum, o problema não foi a pergunta, mas o seu comentário, totalmente previsível ser algo desagradável por vir dele. Afinal, sabe o que ele me disse? Detalhe, gritando para a turma toda: “Mas é claro! Você quer ser magra como??? Sempre está mastigando! Come chocolate a aula toda e ainda egoísta a ponto de sequer oferecer. Por isso está aí, parecendo uma porca obesa! Já sei, você veio falar isso só para eu te elogiar, queria me ouvir dizer que você é magra e tem um corpo com “bonitas curvas”, né? Hahaha!”. Não obstante, ele levantou a blusa mostrando o “tanquinho” - infelizmente, o problema é que ele é lindo e apesar de todo o meu ranço, não consigo negar - e disse que eu nunca chegaria aos pés dele. Resumindo, ele é um bosta e ainda assim fui eu quem passei vergonha. Pois é, eu disse, bem desagradável, ele é um tremendo imbecil.

    O fato de memorar isso me impulsionou a ir, pois, eu jamais daria a ele esse gostinho. Me recuso a me privar de algo por causa dele.

    Chegando lá, tudo estava bem animado e a festa parecia prometer. Trombei com ele ainda na fila que ousou em me dar um sorrisinho sarcástico malicioso, não me contive e, como de praxe, não exitei em revirar os olhos. Prometi a mim mesma que não o deixaria estragar a minha noite, eu havia levado tempo demais para me produzir e estava um arraso, não seria por causa dele que perderia o clima.

    Tempo depois, os meus colegas chegaram e toda a galera estava dançando. Apesar dos meus pés estarem me matando, a música era contagiante demais. Sem sequer esperar, um cara puxou a minha mão como quem me guiava convidando-me para dançar, tratava-se do baile da escola e por isso não fiquei receosa de seguir, afinal, conhecia todos ali. Porém, além de tomar um baita susto, instantaneamente fiquei frustrada, posso dizer que acima de tudo chocada, quando um feixe de luz roxa iluminou o seu rosto e pude reconhecer o Eduardo. Novamente, não me contive e soltei um “Grr, só pode ser perseguição!” enquanto tentava soltar sua mão.

    Estranhamente, disse que precisava conversar num canto, a sua expressão foi de receio, pela primeira vez notei que ele não estava com ar de zombaria. Como se fosse um mantra, enquanto caminhava sibilei para mim mesma três vezes “não irei me estressar essa noite”. Primeiro, pediu apenas para ouvi-lo, não queria ouvir de imediato as minhas constatações, assim o fiz. Ele veio com um papinho nada a cara dele de “me desculpe”, “será que pode me perdoar?”; depois a coisa foi ficando ainda mais esquisita, começou a me elogiar dizendo que sou bonita e blá blá blá; como se a coisa não pudesse ficar pior, contou que as minhas patadas o magoavam e ainda me pediu para parar, como se a minha grosseria para com ele surgisse do nada; a parte surreal foi ele alegando - assumindo - que só fazia aquilo para chamar minha atenção, que na realidade estava super na minha. Acredita que o filho da mãe teve a cara de pau de falar que era “afinzaço” de mim? Oi?!

    Sem saber o que falar, numa inútil tentativa de fugir da situação embaraçosa corri desesperadamente para o banheiro. Passei a mão molhada na nuca enquanto fitava-me no espelho do lavabo. Por que eu estava tensa? Para tornar tudo engraçado, o trecho do ícone da Kelly Key não saía da minha mente “você é gatinho, mas assim não dá”. A música alta me impedia de refletir com clareza se poderia esquecer meses de fúria oriunda de uma perseguição idiota e dar a ele uma chance, permitindo-me conhecer o “boy lixo”. Espontaneamente, dei risada debochando de mim mesma, já que só o fato de cogitar a ideia soava absurdo. Definitivamente não, não mesmo! Fala sério, se é assim, que ele entre em combustão, quero mais que essa situação seja para ele torturante, como foi para mim todos esses meses de brincadeirinha sem graça.

    No mesmo instante, um súbito pensamento trouxe de volta cor à minha noite. Com certeza, aquilo se tratava de mais uma brincadeira ridícula dele, uma tentativa de aferir se sentia algo por ele, caso caísse em sua ladainha, iria usar como motivo para me caçoar o resto do ano. Puff, mais infantil do que podia imaginar.

    Me recompus e sai do banheiro, iria fingir que nada havia acontecido, simplesmente optei por ignorar o ocorrido. Não deu certo, na porta do banheiro o Otávio me encurralou “tem um cara que é afim de você há um tempão. Mana, fica com o Edu?”, não posso ser hipócrita em negar que não passou pela minha cabeça acatar a proposta - a galera toda sabia, agora, era evidente o porquê de não darem trela às minhas reclamações a seu respeito - , mas tudo o que consegui fazer foi gargalhar. Sim, eu gargalhei, só não sei concluir se foi mais pelo cúmulo do absurdo ou de constrangimento. Não deu em outra, o boy ficou super sem graça - mais que eu até, se é que foi possível - e sumiu na multidão, o Otávio soltou um “Bom, você quem sabe. Eu até te entendo.” e saiu em disparada atrás do amigo.

    Aquela noite foi inusitada de todas as formas, eu não conseguia processar o que estava rolando e me senti super mal pela forma como ele saiu. Não deu em outra, perdi o clima e decidi ir embora. O cara era mais complicado do que eu pensava. Me deparei com ele sentado na calçada sozinho no lado de fora, “Meu pai vai vir me buscar, quer uma carona? Sei que sua casa é no final da minha rua”. Não queria ser chata, aceitei e percebi que ele levou como uma anuência à um bate-papo. Conversar com ele sobre aquilo não foi tão horrível como imaginei que seria. E, sim, a coisa toda era real. O pai dele estava demorando consideravelmente, cheguei a duvidar se ele sequer havia feito a tal ligação. Acabou que conversamos bastante e pela primeira vez em um diálogo não o classifiquei em pensamento como “desprezível”.

    A festa era no bairro, então decidimos por ir caminhando e encontrarmos o seu pai no caminho. Não sei o que aconteceu, mas, do nada me vi correndo pelo quarteirão com ele em meio a gargalhadas. Naquela noite, eu ri tanto que a minha barriga chegou a doer. Fiquei surpresa, fui capaz de reconhecer uma característica positiva nele, conseguir me fazer rir. Naquela madrugada quente, nos beijamos pela primeira vez, bom, eu o beijei. Fomos interrompidos pela buzina forte do carro do pai dele. Eu disse, aquela noite foi inusitada. Eu e o meu dedo podre.


    Janaina Couto ©
    [Publicado - 2016]

    @janacoutoj

  • [Contos] FUGA - Parte I

    Na rua, vindo do trabalho de bicicleta, estava frio, o dia nublado, eu cansado… quando a vi. A vi passar, no outro lado da rua, caminhando de mochila e com um livro na mão, parar no ponto de ônibus, abrir o livro e começar a folheá-lo. Ela estava graciosa, tão linda… parecia distante, perdida num momento que pertencia só à ela. Mas, ao cruzar a rua e passar rapidamente em frente ao ponto, ainda fui capaz de notar seu rosto de choro… suas maçãs estavam avermelhadas, assim como os olhos e a ponta do nariz. Instantaneamente questionei: O que poderia fazê-la chorar? Eu a olhei de canto, mas não acenei, não chamei, não fiz nada, só continuei a pedalar. Percebi que no mesmo instante ela levantou o rosto a procura de alguém conhecido, mas logo voltou a se debruçar sobre o livro.

    Ainda longe de casa, naquele dia nublado, numa sexta-feira de verão, próximo às 7h00 da noite, começou uma garoa fina. Os faróis dos carros iluminavam o início de noite e pedalando ao som de “Baby I’m Yours — Arctic Monkeys” nos meus fones, senti uma sensação diferente, não ruim, que estremeceu e arrepiou todo o meu corpo, desde os meus pés à minha nuca. Uma forte onda nostálgica bateu em mim e todos os sentimentos mais quentes e intensos permeavam o meu corpo e mente novamente, como se de repente eu fosse repreenchido por algo que já havia caindo no esquecimento, mas que ainda estava ali, dentro de mim. Aqueles olhos castanhos, donos de formosos cachos do mesmíssimo tom de castanho avelã que ao vento, assim como ao sol, enalteciam ainda mais a beleza e profundidade daquele olhar, pairavam em minha mente.

    Instantaneamente, uma reprise de tudo que eu vivi com aqueles olhos castanhos me possuiu… era invasivo… como se algo qual eu lutei pra guardar e deixar ali, quietinho, estivesse gritando e me inundando, trazendo recordações de um sentimento forte, fascinante, gostoso, sedutor… adocicado por um desejo insano de vivenciar cada instante novamente… de poder tocar os cachos daquele cabelo. Sentindo aquilo me dominar, me corroer, lutando para pensar em outra coisa e encontrando-me sem saída, futilmente comecei a pedalar mais rápido, a chuva engrossava e o meu desespero para deixar aquilo de lado e apenas me concentrar em chegar em casa era imenso… não fui capaz, não consegui. Fui vencido e sentir-me-ia ser preenchido.

    Arfei. Arfei ao sentir novamente todo aquele turbilhão de emoção vigorar em mim novamente. Paixão. Zelo. Admiração. Tesão. Por um segundo cheguei a questionar porquê internalizei aquilo, se me fazia sentir triunfo. Porém, como em uma antítese, vinheram estes por conseguintes acompanhados. Culpa. Pena. Frustração. Arrependimento. Fazendo-me lembrar como memórias tão gostosas e sentimentos intensos foram por mim soterrados. Chovia muito. Naquele instante, com a camiseta toda molhada, a ventania congelava o meu peito e, ainda assim, eu conseguia senti-lo queimar.

    A chuva embasava a minha visão e minha mente era invadida por flashbacks de todas as vezes que meus olhos encontraram aqueles penetrantes olhos amarronzados, tornando quase impossível distinguir a realidade da alucinação. Novamente o olhar mais quente, insano, misterioso… me fitando. Olhar que me chamava, me deixava sem ar por segundos, me afogava.

    Os flashbacks eram como fotos. Lembranças intensas que eu não fazia ideia de como poderiam ser tão vivas e ao passar de cada um deles, eu vivenciava cada cena novamente. Sem compreender exatamente o que acontecia comigo, percebendo que ela ainda mexe fortemente comigo, reconheci que não conseguiria fugir daquilo, estava fadado a enfrentar os meus conflitos internos uma hora ou outra, esse momento chegou mais cedo do que imaginei. Não podia sabotar meus pensamentos, tentei e por centenas de vezes consegui, mas dessa vez não.

    Jamais esquecerei como é olhá-la nos olhos e conseguir ver a beleza da sua alma, além da beleza daqueles olhos, a beleza de uma garota que exalava mistério. Garota nada fácil de desvendar, dona de um império interior que eu ansiava descobrir. Intuitivamente, eu sabia. A todo instante sabia que me perderia na intensidade daquele olhar profundo, na imensidão de seu império, mas de imediato eu não tive medo, afinal, sempre me cativei pelo desconhecido. Aos poucos os flashbacks já não eram tão recorrentes, sendo substituídos pelas luzes fortes dos faróis dos carros. A chuva virou garoa. Pedalando agora devagar, percebi que já havia passado a rua de casa.

    Estranhamente, a noite fria, agora, era tomada por um mormaço. O meu bairro tranquilo. As árvores ainda molhadas transmitiam calmaria. Típica noite de verão. Nostálgica. Respirei fundo e apesar de não desvendar o propósito dela, decidi apreciá-la. Eu já não queria mais fugir e agora admirava o céu estrelado ao lado dela… a saudade. Pedalando, observando cada rua, cada casa, cada esquina… parei numa praça. Praça qual eu conhecia muito bem. Lugar que marcou muitas noites minhas, noites quentes. Perfeita para marcar também uma noite nostálgica que, agora, transbordava em saudade.

    Adentrei a praça, vazia, segui uma pequena trilha de terra e pedras, encontrei com facilidade não só o lugar, mas também o banco que tinha em mente, um cantinho bem específico. Larguei a bicicleta na grama, tirei a mochila das costas, enxuguei o excesso de água no banco e me sentei, tirei a camisa molhada e coloquei apenas o agasalho azul que tinha na bolsa. A copa das árvores ao redor, assim como eu, eram iluminadas pelo poste de luz atrás do banco. Chuviscava. Sentado com o corpo relaxado eu podia ver as minúsculas gotículas caírem do céu.

    A lua iluminava a pequena trilha que terminava logo à frente. E ao som de “ As Long As You Love Me — Jaymes Young” nos meus fones, eu nunca senti tanta saudade… dos caracóis daquele cabelo. O som penetrava em meus ouvidos e permeava a minha mente, que, por vez, fazia uma trilha sonora com tudo o que vivenciei com ela. Uma trilha sonora da nossa história, bom, ao menos para mim nós tivemos uma história. Olhando as copas das árvores aquietarem-se, os chuviscos cessarem e a inquietação da praça ir embora com a chegada de um casal caminhando em meio a gargalhadas na estrada da praça ao longe, foi o estopim para um instante de lucidez em meio a tantos delírios.

    Me vi cercado de questionamentos quanto ao eterno “e se”. Reparando no casal ao longe, suspirei, passei a mão no cabelo ainda molhado, repousei as costas no banco e indaguei, pensando alto, num sussurro: Como posso ter uma história com uma garota que eu não tive um “relacionamento”? Encarando a trilha iluminada pela noite estrelada, a imagem dela no ponto de ônibus mais cedo tornou a minha mente, seu cabelo longo com mechas e cachos aleatórios flutuando ao vento… incrível como tudo parecia ser reproduzido em câmera lenta.

    Se no instante que a conheci alguém me dissesse que um dia eu me veria perdidamente seduzido por aqueles olhos cor de avelã que exalavam perdição, pelos macios cachos de seu cabelo, por seu cheiro de lírio, pelo sorriso de mistério, por seu jeito quente… completamente desesperado por aquela garota sagaz, eu jamais acreditaria. Eu não era desses. Definitivamente não era esse tipo de cara. Não era… Lembrei das nossas conversas nesta praça durante as madrugadas do verão passado, dela me falando sobre intensidade, sentimentos, o universo, destino… era extraordinária sua capacidade de criar teorias elaboradas — e escrever — sobre tudo. Ela queimava de tanta intensidade.

    Eu, por vez, achava aquilo tudo tão bobo, não fazia nenhum sentido racional para mim. Apesar dela não falar a respeito, sequer imaginava, que, no fundo, eu conseguia reconhecer seus sinais de paixão. Não sei exatamente o que a deixava atraída por mim, éramos muito diferentes. Vê-la dessa forma era ardente, me deixava ainda mais gamado, fascinado. Mas, sinceramente, paixão? Eu não era desses… não era.

    O universo fez questão de me fazer reconhecer o fervor de tudo o que ela sentia, da pior forma, na pele… queimando em intensidade, atordoado de desejo para me perder — ou me encontrar? — novamente em seu olhar profundo. Admirando a exuberância da praça, sentindo o pesar da ausência de alguém que não permiti “ser minha”, agora, dilacerado pelo remorso junto ao arrependimento, era impossível mensurar o quanto eu a queria.

    Nunca imaginei que aconteceria um terço do que vivemos, nem que recordaria sem esforços os mais singelos detalhes, muito menos que o destino traria de volta uma paixão do passado, afinal, nossa história é de muito tempo. Fadados ao erro. Ela recuou na primeira vez. E na segunda? Eu fugi.

    Os meus pensamentos me torturavam e tudo só piorava enquanto eu buscava, numa tentativa falha, compreender racionalmente os motivos da minha fuga ao esmiuçar as fases do nosso distanciamento. Medo? Balbuciei no intuito de elaborar uma justificativa que a tornava unicamente culpada, irrefutavelmente não consegui. Havia um culpado? Hoje, creio que não. Mas uma coisa é evidente, situações pequenas, coisas ditas em dois segundos que pouco a pouco abalaram a conexão construída no decorrer das estações, influenciadas não só pelo meu orgulho, mas também, por toda ingenuidade amorosa dela junto ao seu desgaste emocional.

    No entanto, não são os fatos que me torturam, afinal, não sou capaz de mudá-los. Agora, nessa noite, nesta praça, sentado em “nosso” banco e sentindo o cheiro de terra molhada, sou torturado por questionamentos do eterno “e se…” e nada me corrói tanto. E se quando reconheci que estava me apaixonando eu não tivesse me afastado? E se ela me falasse quando a magoei? E se, depois de tudo, ao ser sincera ela não tivesse estraçalhado meu coração? Como não possuíamos um “relacionamento” não nos sentíamos confortáveis em cobrar ou prestar esclarecimentos. E se eu tivesse feito isso? E se ela tivesse feito? Será que ela tentou e eu não percebi? Não sei, na época sempre dotado de orgulho.

    A imagem dela no ponto não saia da minha mente, sozinha e pensativa, assim como eu nesta praça, ao contrário do casal que ainda estava ali, distante, mas ali. As horas corriam e eu nem me dava conta. Apesar de fisicamente bem, eu estava cansado, a mente cansada, tudo aquilo estava sendo tão exaustivo e, de modo antagônico, fazia meses que não me sentia tão vivo, pois eu queimava em intensidade, paixão. Como no verão passado, mas antes não notara a nobreza dessa dádiva, afinal, parece que a paixão consegue ser bela e árdua concomitantemente.

    Não sei como consegui manter a imensidão do que eu sinto escondida por tanto tempo. Enquanto a garota mais incrível que já conheci estava ali, eu, um moleque entusiasmado e imaturo, como sempre, queria só jogar, desvendá-la. Sequer pensava na possibilidade de gostar dela, gostar de verdade, pra valer. Eu não era desses de se apaixonar. E quando ela foi embora, não me dei conta que havia perdido um alguém que tanto precisava. Camuflei a dor. Ela disse adeus e parecia estar tudo bem, e estava, pois eu me enchi de prazeres e felicidades momentâneas para internalizar tudo. Eu não era desses que sofria e sequer conhecia isso de “superar”.

    Mas, hoje, voltando do trabalho, quando a vi, lutei para evitar esse turbilhão de sentimentos, os quais não mais consegui manter estancados. Sinto que não serei capaz de internalizá-los novamente, já não cabem mais ao peito, me sufocam, são maiores que eu.

    Enquanto pedalava, sob a garoa, a procura dessa praça, dei-me conta de como os meus envolvimentos amorosos de lá pra cá são supérfluos quando comparados a grandiosidade do que ela me permitiu sentir. Eu, sinceramente, não conhecia e não conheço isso de superar, afinal, eu nunca a esqueci, sempre acabo apaixonando-me por ela de novo, de novo e de novo.

    Não sei explicar a razão. O universo? Nunca acreditei nisso de “destino”, ela por vez… sinto-me condenado a acreditar. Espero que a nossa história não acabe assim, não pode ser, desejo que não sejamos apenas duas pessoas que não mais se conhecem com uma história profunda num passado em comum.

    Ao som baixo de “ASTN — Love No More”, fechei os olhos, respirei fundo e permaneci ali, sentindo a natureza, ouvindo ao longe o barulho da cidade abafado pelas árvores e pelos meus fones, sentido o mundo e a vida ao meu redor e em como tudo aquilo era incrivelmente gostoso, finalmente, em meses, eu me sentia vivo.

    Mais uma vez respirei fundo, deixando os pensamentos e angústias irem embora, pouco a pouco evadirem-se, até que permaneceu apenas a perfeição daquele sentimento puro e inexplicável dentro de mim. Realmente, agora, desejava apreciar a noite nostálgica, sem os conflitos internos, só memorando, com intensidade, as coisas boas que fizemos um ao outro, os nossos melhores momentos — onde as situações mais simples eram repletas de borboletas no estômago -, lembrando o quanto ela me incentivava a ser uma pessoa cada vez melhor.

    Transcender. Era essa a palavra que ela usava. Senti uma brisa ao pé do ouvido, lentamente abri os olhos, reconhecendo que tudo o que vivenciei nesta noite foi preciso, para minha alma, pro meu coração, pro meu eu.


    Janaina Couto ©
    [Publicado — 2018]

    @janacoutoj

  • [Desabafo] CAOS

    A sensação de que há um “assunto pendente”, algo mal resolvido, me corrói. Fico atordoada pela ideia de que algo atrelado a mim ainda pode ser fruto de incômodo para outrem. Detesto imbróglios, questões mal resolvidas e situações mal interpretadas.

    Você sabia muito bem disso e foi justamente o que te levou a aceitar o meu convite. Tenho certeza de que reconheceu a minha gana, tornar nítidos os motins da ruptura. Sabia que eu não te chamaria para conversar, especialmente naquela data, sem mais nem menos.

    Havia passado dias consideráveis matutando aquele momento. Enquanto detalhava a mim mesma tudo o que deveria elucidar, acabei muita vezes me remetendo à tão planejada noite por “lucidez”.

    Independente do caminhar da nossa coisa, da ruptura, de toda a estação… naquela noite, eu havia planejado te esclarecer e pontuar o universo e o mundo. Sobretudo, para tornar evidente o que você pareceu não compreender quanto ao apagão da nossa cidade. Por respeito a você e ao que eu sentia.

    O meu intuito foi deixar nós dois às claras. A minha intenção era também te ouvir, depois de meses para se olhar com distância a nossa cidade. Pretendia aferir sua visão na tentativa de saber se ela ainda te fazia sentido, descobrir se o seu sentir ainda prevalecia. Sobretudo, esclarecer quanto ao meu sentir.

    Confesso, havia marcado o encontro visando resgatar o “nós” e não somente o “eu e você”. Fui até o Recanto pensando em retaliação. Retaliar o elo, resgatar o vínculo

    Felizmente, enquanto a noite ainda era de nitidez, sob a luz da lua, consegui fazer isso. Tudo saiu perfeito. Óbvio, não segui qualquer roteiro. Explanei o que senti que precisava. Falei tudo do fundo do coração. Chorei de uma forma desmedida. Chorei por amor. Justamente por isso, ainda me remeto ao inicio daquela noite por “lucidez”.

    Porém, sabe o que aconteceu?

    Bom, você sabe muito bem. Disso, eu não tenho duvidas. Tenho certeza que o inicio daquela noite foi incinerado em sua memória. Não te julgo se o epilogo final se tratar do que marcará pra sempre o seu 11 de Junho.

    De um instante a outro, tudo o que eu havia acabado de fazer se desmanchou. Enquanto sentia paz comigo mesma pelo pingos nos “i”s, enquanto o vigor preenchia a nossa cidade…. na travessia daquela rua, sob a luz daquele farol, nos deparamos com outro apagão.

    Mais uma vez o seu não confiar em mim metamorfoseou uma noite que eu tanto havia planejado, noite que escancarei com a maior pureza como a ruptura estava sendo dolorosa, na madrugada mais desagradável dos nossos dias.

    A ponta de esperança que brotara no início daquela noite, foi esfarelada. Naqueles minutos, constatei com pesar que diante de qualquer situação de desconforto, você agiria daquela maneira. Movido por um imediatismo cego. Nada mudaria.

    Com decepção, reconheci isso segundos antes do estopim. Exatamente quando me questionou e me impôs uma conduta. Justamente um dos pontos que abalava a nossa coisa não iria mudar. Aliás, exatamente o que eu havia acabado de apontar e desprezar — enquanto a noite ainda era de “lucidez”.

    Custava parar e pensar? Fazer, uma única vez, o que eu te pedia?

    Não bastasse, o que aconteceu depois só me provou que, independente de qualquer coisa, aquilo não só iria perdurar, como também — com o transcurso do tempo — ficaria ainda mais forte, incisivo e saliente de uma forma incrivelmente ruim.

    No mais, constatei que sempre teria de implorar para ser ouvida. Exatamente nada havia mudado desde a ruptura. Costumava falar muito para alguém que nunca esteve disposto a me ouvir.

    É duro afirmar que, ainda no caminhar da nossa coisa, eu percebia isso e dizia a ti e a mim mesma frases como: “não vou tentar provar mais nada”, “não vou me explicar mais, sei que de nada adianta”, “pense o que quiser, prometi não mais me justificar”, “eu não vou mais nada”.

    No entanto, a minha gana em contornar a situação e escancarar que aquilo tudo era em vão sempre foi maior que eu. Não Importava o quanto eu estivesse de saco cheio daquilo, sempre me vi descartando a minha afirmação e agindo da forma oposta. Me rastejando para ser ouvida. Na segunda parte daquela noite, não foi diferente.

    A situação foi tão esdrúxula que me vi tentando provar algo que eu sequer deveria. Eu sempre tinha que provar. Não bastasse, quando raramente era ouvida, a minha fala de nada adiantava, nunca foi valorada.

    Logo após a nitidez, em segundos, você agiu justamente da forma que eu havia acabado de repudiar. No entanto, ainda assim, foi diferente. Havia algo mais. Me deparei com um estranho e ele me causou medo.

    Você estava caminhando, novamente, para a escuridão da noite.

    Vi uma face sua que me deixou assustada. Não sei. Você é assim. É de você. Eu não sei explicar. Juro que, naquela noite, tive medo, pela sua expressão e pela sua forma de falar. Não sei se o seu agir foi motivado somente por aquela situação mal interpretada, acredito que foi mais um ponto.

    Sem razão para tanto, o que jamais deveria acontecer no suporte de qualquer amor, aconteceu. Exatamente aquilo que eu mais temia. Entre nós, perdeu-se o respeito e isso não sai da minha mente.

    No final das contas, a noite se desfechou com uma situação mal interpretada. Comigo, mais uma vez, me humilhando para ser ouvida. Implorando para alguém não me vê de uma forma que foge totalmente de quem sou. Implorando para não ser vista de uma forma que detestei. Argumentando para provar algo que eu não deveria precisar provar, a minha moralidade.

    Pedi desculpas antes antes mesmo de conversarmos para esclarecer o imbróglio que havia acabado de surgir. Pois, repentinamente caí em mim. Recordei o caminhar da nossa coisa, em como pequenas situações eram transformadas em grotescos problemas; como pensamos, vemos, agimos e valorizamos tudo de uma forma incrivelmente distinta.

    Olhei o entorno da nossa cidade, de um instante a outro, me arrepiei dos pés à nuca. O eclipse chegara. Senti que trinta dias de noite se aproximavam. O exato momento que aferi, com imenso pesar, como equivocadamente você havia interpretado. No exato segundo em que você mudou todo seu espectro, constatei de imediato. Os seus traço, o olhar, a fala e o teu jeito enfatizavam.

    Pressenti que agiria da mesmíssima forma que eu, aos prantos, enquanto a noite ainda era de “nitidez”, havia acabado de menosprezar. Percebi que não estaria disposto a me ouvir e “concretizaria”, para si, algo que inocorreu. Sabia que se recusaria a me ouvir.

    Todo um conglomerado de fatos e o teu jeito imediatista o levaram a fazer algo impetuoso, me desrespeitar.

    Nos microssegundos que me permitiu falar, aparentemente se dispondo a ouvir, cortava a minha fala enquanto se manifestava persistindo nos mesmos julgamentos.

    Foi nojento você projetar que eu seria capaz de tanto. Tenho princípios e valores, justamente pela existência deles, jamais poderia até mesmo cogitar.

    Buscando compreender como uma garoa havia se transformado num tornado, com medo, enquanto sussurrava a mim mesma “deus, ele só pode ter ficado louco”, tentei fazer com que você realmente visualizasse tudo, nos seus exatos termos.

    Pelejei para que me ouvisse, principalmente, para que se propusesse a ver da minha forma. Tentando te fazer entender, me desmanchei com cada gota daquela chuva ácida. De um segundo a outro, o meu entorno se destruía.

    Te ver assim me fez cogitar o meu agir. Óbvio. Ainda que eu não tenha tido qualquer má pretensão, tão menos o que você alegou. Olhei com distância. Me coloquei no seu lugar.

    Desesperada, sem ter a mínima ideia de como nos salvar dos caos, cegamente me vi tomada pela histeria. Enquanto segurava o seu rosto com ferocidade, a ponto de ver cada um dos teus traços rentes aos meus, na fútil tentativa de te trazer de volta para a realidade, eu gritava palavras na sua cara. Cada palavra forte, pesada… cada uma das minhas frases densas, foram dotadas de imenso temor e angustia.

    Desejei com todas as minhas forças que isso fosse capaz de te dar lucidez. Te vi num pesadelo, imerso num mundo e eu não conseguia te encontrar. Me vi pequena e frágil. O nosso entorno estava desmoronando e eu fui incapaz de salvar você.

    Pude ver, nitidamente, ao som de “Mazzy Star — Fade Into You”, o nosso olimpo transformando-se em ruínas. O soar do despencar de cada pilar era uma facada no meu coração. Me desesperei com a ideia de olhar a trilha e vê-la desaparecer.

    Naquela noite, reconheci da pior forma o quanto o amor pode machucar.

    Você, por vez, exatamente na mesma coisa. Teu olhar me dizia “você está delirando”, como se eu quem estivesse num mundo de fantasias e somente naquele agora vendo a realidade. Ouvi uma série de ofensas, as quais, aliás, recordo com fidúcia.

    Sei que tudo o que ouvi foi pautado não somente num imediatismo cego. Foram palavras ditas por alguém que estava indo na escuridão da noite e não importava o quanto eu corresse, não conseguia alcançar. Eu jamais havia estado naquele lugar.

    Você não só se desfez a ponto de ficar cego, você se perdeu na escuridão daquela noite. Estranhamente te vi desaparecendo-se em si mesmo. Até que, nos destroços, não mais pude te tocar, sentir ou enxergar. Estava somente um estranho diante de mim.

    E ainda assim, eu ansiava enfrentá-lo, pois sabia que você estava ali, em algum lugar. Queria te salvar dos devaneios. Faria o impossível para que não fosse coberto pelo negro daquele lugar.

    Desejava ainda mais que os golpes cessassem. Não mais ser apunhalada. Desejava, sobretudo, gritar para o mundo, gritar e te fazer acordar. Parar.

    Se as coisas que me foram ditas tivessem sido proferidas por qualquer pessoa, não teria me suscitado exatamente nada, pois tenho convicção de quem sou, sei o que fiz e o que jamais seria capaz.

    O árduo foi por ser justamente você. A pessoa quem fiz refúgio e acreditei que sequer por um instante pensaria aquelas coisas a meu respeito. Colocar na mesma oração aqueles adjetivos e o meu nome. Quem imaginei que, ao contrário, diante de alegações sujas quanto ao meu eu, diria rigorosamente o extremo oposto, justamente por me conhecer.

    O corte mais incisivo foi por ter sido uma das pessoas com quem eu muito me importava. O árduo foi cada palavra vir acompanhada do teu timbre. Pois, ainda que eu visse um estranho diante de mim, ainda se tratava do timbre do meu mais insano e desmedido amor.

    Agiu de uma forma como quem me acusava de algo que repudio do princípio ao fim. Imputando-me um crime que eu jamais poderia executar, aliás, que sequer seria capaz de cogitar ou premeditar. Me desesperei com a ideia de VOCÊ atrelar aquilo a mim. Principalmente, por me fazer alguém quem não sou.

    Desprezou que o próprio episódio mal interpretado confirmava que eu havia estagnado no tempo o “eu e você”. Sem contar o fato de tudo que ainda pulsava em mim. Sem contar que mesmo com a ruptura, de uma hora para a outra, você não havia se tornado qualquer pessoa. Sou muito fiel a mim mesma e ao que sinto.

    Justamente por tudo o que compartilhei. Pela nossa troca. Por cada uma das luzes, travessas e edifícios da nossa cidade, você conhecia como a palma da sua mão cada fresta minha. Tenho certeza que deu para perceber que aqueles adjetivos (você sabe exatamente quais) induzem coisas que não condizem comigo.

    Aliás, sou MULHER o suficiente para assumir os meus erros. Principalmente, para me conhecer, assim, engolir e “levar na cara” as consequências dos meu erros. Não me importaria se me julgassem por quem realmente sou ou por algo que fiz. Mas, não admito ser rotulada por algo que destoa completamente da realidade. Óbvio, se tratando ainda de um apontamento partindo de alguém com quem me importo, me fere e com motivo.

    Sei me impor. Sei segregar as coisas. Infelizmente, à época, por me importar muito com o que você pensava a meu respeito, tentando nos salvar da mácula, agi no centro da cidade como se eu tivesse culpa. Como se tudo o que você falou ou pensou sobre aquilo fosse verdade.

    Estava e estou saturada. Deixei bem claro que as coisas que pensou a meu respeito foi uma quimera. Jamais faria tal coisa. Jamais. Ferem os meus valores e princípios. Traí o que eu sinto. Traí a mim mesma.

    Foi insano como de um instante a outro ateou fogo na nossa cidade. Se o seu intuito era me incendiar, conseguiu. Naquela noite, eu descobri como alguém poder ser o céu e o inferno de outro. Reconheci porquê dizem que o amor e o ódio são o mesmo sentimentos no extremo de seus pólos, o bom e o ruim, respectivamente.

    Confesso. Demorei dias consideráveis para digerir o ocorrido. Muitas vezes questionei se as coisas podres que me foram remetidas tratavam-se do que você sempre pensou e achou o momento oportuno para descarregar. Matutei até mesmo pontos que acabavam por respaldar isso, em razão de tanto, memorei como detestava alguns detalhes frágeis do meu jeito, coisas simples.

    Absolutamente nada, tão menos a minha “simpatia exagerada” deveria ser usada para fazer presunções equivocadas a meu respeito. Não sei o que via em mim de tão negativo para causar tamanha desconfiança a ponto de te fazer pensar e/ou cogitar tamanho desatino.

    Naquela noite, suas alegações, assim como o seu agir, induziram que sou uma mulher “fácil” (estou ciente do peso dessa fala e é exatamente esse o peso que você impôs). No desprezível linguajar popular masculino, me fez “qualquer uma”. Senti desgosto e desprezo ao constatar tamanha imundice.

    Outrossim, ainda que eu tenha lhe dito “nunca vou esquecer essas palavras”, ouvi um árduo “e você acha que eu ligo?”.

    E não ouse dizer “se te atinge, acatou porque é seu”. DETESTO ser tratada e julgada de uma forma que não mereço.

    Sei o quanto a sociedade é podre. Vivo, sobretudo, ainda que sem perceber, constantemente, para qualquer pessoa, justificando e explicando meu agir e escolhas, sem precisar — sem dever isso. Justamente para jamais ser rotulada de um forma que repudio. Para não ser rotulada como você fez. Para não me fazerem quem não sou. Eu quero esculpir a mim mesma, isso não cabe aos outros.

    Não digo que você não tinha o direito de estar chateado. Aliás, em nenhum momento disse que não tinha esse direito. Não fui hipócrita. Eu pedi desculpas. Mesmo tendo plena convicção sobre o meu agir. Pedi desculpas de antemão para salvar o epílogo de nitidez daquela noite, pois vi tudo desaguando por uma situação mal interpretada.

    Confesso, me sinto culpada. No seu lugar, tenho plena convicção de que me sentiria desconfortável, ainda que não visse o que você diz “ver”. Justamente por reconhecer isso que eu implorei para ser ouvida.

    Sei que falhei, pois, ainda que eu não tenha tido qualquer má intenção, de forma repentina havia cogitado a possibilidade de ocasionar esse imbróglio. Uma situação mal interpretada. Balbuciei para mim mesma que você poderia distorcer tudo ao extremo no polo ruim. Era algo, por mim, esperado.

    Mas, tolamente acreditei que, como sempre, conversaríamos e pronto. Imaginei exatamente o contrário. Acreditei que veria a minha intenção e ficaria “grato” pela existência dela, resgatar o “nós” ou ao menos não deixar se diluir o “eu e você”.

    Admito. Somente depois da sua reação que fui perspicaz. Concordo que eu poderia ter usado outro mecanismo. Não que justifique, hoje, penso de forma distinta, mas, à época fui sim ingênua, boba… não sei. Reitero que não tive intenção errada alguma, sequer havia percebido o contrário, acredito que a recíproca foi a mesma.

    No mais, afastando a minha gana quanto a nós, quanto ao restante, principalmente por se tratar de algo pequeno, que não me importava ou sequer detinha valor, eu poderia ter evitado. Me sinto mal. Me desculpa.

    Independente do meu agir sem mais pretensões, independente do cerne ser você, ainda hoje sou despedaçada por me sentir culpada por parte do que você sentiu.

    Recordo claramente do seu “você não vê problema em nada”. Não se tratou disso. Eu percebi tudo. Vi até demais. Como eu mesma te disse, vi problema por ter cogitado que aquilo iria te causar incômodo, sobretudo, por ter englobado algo que eu poderia ter evitado. Me sinto culpada por ter premeditado e você ter sido afetado exatamente nesse sentido.

    O meu sentimento de culpa sempre esteve atrelado ao tipo de problema que constatei. Não vejo apenas os meus erros e acertos, também reconheço os meus deslizes.

    Olhando com distância, refletindo quanto ao meu agir e pensando em tudo que te expus e mostrei com franqueza, na inversão dos papéis, digo com convicção que eu não teria qualquer insegurança. No entanto, somos pessoas diferentes, não te julgo por aquilo ter te trago um embaraço emocional.

    Mas, o fato de eu sentir culpa nesse sentido não significa que eu acate os seus pensamentos nojentos. Aliás, reitero que não menti em nenhum instante, mesmo com o advento da ruptura, jamais ousaria abandonar o pacto, “nus e crus”.

    Tendo consciência do meu agir, realmente não vi nem um pouco próximo a ti. Constatei problema por uma questão sentimental, pelo vínculo que tivemos e que, à época, eu acreditei que ainda possuíamos. Mas não o problema que você viu, não dá forma que você interpretou.

    Meu bem, eu vi a situação. Vi até demais. Vi principalmente os pontos mais salientes que você aparentou ser incapaz de visualizar. Posteriormente, pontuei cada um deles, esclarecendo tentando sanar o vício que acometia aquela situação - do princípio ao fim, por ti, má interpretada.

    Ainda reconhecendo que, pensando na nossa coisa, me pondo no seu lugar — preso num mundo de ilusões e movido por um imediatismo cego — o ocorrido seria sim de desconforto.

    Assumindo o seu papel, imaginando e “visualizando” exatamente como você aduz , tenho convicção de que eu sentiria coisas dolorosas. Que o meu corpo seria tomado por uma mácula. Que seria dotada de sentimentos ruins - mesmo sem fazer ideia de quais seriam. Portanto, não ouso arguir que você não teria razão em ficar magoado ou mesmo me espantar por você ter sentindo fúria.

    Exatamente por essa reflexão, ainda que eu não tenha tido intenção de causar aquilo, me desculpei. Me desculpei pela mácula que, sem querer, senti que te causei. Me desculpei mesmo tendo consciência do meu agir e sendo sensata o suficiente para saber exatamente o que a ruptura significava.

    Porém, no seu lugar, apesar dos pesares, eu jamais seria capaz de te ferir da forma como você machucou. Desrespeitar quem amo, burlar as regras da minha própria cidade, sobretudo, ferir. Portanto, ainda me colocando no seu papel, me enoja recordar que você não só pensou, como falou, algo tão pútrido de mim.

    Naquele eclipse, pouco a pouco as chamas da nossa cidade ficaram ainda mais calorosas e o vermelho mais insano. Deparei-me com o estopim. O extremo do meu limite. Havia cansado. Estava cansada de ouvir absurdos. Cansada de tentar futilmente te arrancar do negro daquele lugar, de te segurar e puxar para onde havia luz e te fazer enxergar as coisas.

    Despedi tanta força física, emocional e psicológica que depois me senti arrasada. Cansada como se estivesse enfrentado uma batalha. Não, não travei uma batalha. Eu fui incinerada. Naquela noite eu gritei. Gritei com tanta força a ponto de sequer ecoar som. Gritei porque, naquele transtorno, as emoções e sentimentos mais robustos e intensos permeavam o meu corpo.

    Estava em guerra com o meu mais insano e desmedido amor e isso me dilacerou. Gritei para você ficar, voltar, enxergar. Gritei, sobretudo, para expulsar cada pedaço e rastro do que percorria o meu corpo. Gritei vendo as brasas da nossa cidade. Gritei pelo meu amor.

    Sem saber o que fazer, apelei. Corri enquanto queimava, implorando para ser ouvida. Gritei como se a minha voz pudesse afastar o estranho e te fazer acordar, internamente sibilava a mim mesma “ele está lá, em algum lugar”.

    Mesmo depois que a cidade estava tomada pelo cinza, eu tentei. Tentei. Mas, acabei me rendendo após sentir o peso daquele olhar, dotado de fúria e desprezo. O olhar de um estranho. Exato instante que tudo se desfez.

    Não me restava mais nada. Tudo havia se desmanchado. A nossa cidade perdeu-se em algum lugar no tempo. Fui embora frustrada.

    Posteriormente, não bastasse, quando finalmente se propôs ao diálogo, me surpreendia cada vez mais com um absurdo diferente e de uma forma incrivelmente ruim.

    Outrossim, o que eu dissesse ou fizesse já não mais te importava. Deixou muito claro que a minha fala não seria valorada, o seu “promete não fazer mais isso”, ainda na mesma madrugada, me escancarou isso. Você, notadamente, estava de saco cheio de justificativas e explicações, não sentiu sinceridade em mim, ainda apontou cinismo.

    Sabe qual foi outro ponto ainda mais frustrante? Você recordou, assumiu, ter dito coisas imundas e ainda ousou colocar um “Foi uma simples briga. Deveria ter ficado entre nós. Isso está se tornando grande e não estou entendendo. Não era para ser assim. Eu estava com raiva e agi sem pensar”.

    Me desagradou ainda mais te ver, mesmo que na tentativa de uma retaliação ou consenso quanto ao episódio, minimizando algo que nunca deveria ter ocorrido. Não sei se presenciar episódios como aquele te eram comuns. Não pude compreender como não conseguia entender que aquilo era inadmissível. Achei um absurdo o seu posicionamento. Desprezivelmente se pronunciou normalizando o inaceitável.

    Naquela altura do campeonato, depois do que eu mais temia ter acontecido (perde-se o respeito), ouvir um pedido de desculpas ou arrependimento já não mais me importavam. A nossa cidade já havia se desfeito.

    Fui dominada por um sentimento ruim e que ainda era desconhecido, foi a primeira vez que eu sentia decepção. Decepção com quem amava. Enquanto a minha mente vagava na última memória da nossa cidade, ao fundo, ainda ecoava “Mazzy Star — Fade Into You”. Você conseguiu me incendiar, morri naquela noite uma centena de vezes… a nossa cidade tomada por ruínas e brasas. Foi a primeira vez que havia me arrependido por sentir o mundo.

    A nossa cidade, o meu mundo foi destruído. Não havia mais qualquer resquício. Como se a sua matéria prima tivesse sido a ilusão. O eclipse foi embora e a levou consigo.

    Depois de tanto, tudo o que eu consegui sentir foi uma imensa decepção.

    Não bastasse, já havia enfatizado “na hipótese absurda, se eu fosse capaz de algo tão desprezível ou mesmo digna de qualquer absurdo que você proferiu, sou mulher o suficiente para “‘mastigar e engolir’”. “Se o seu intuito é “caçar” motivo para me denegrir, não vai encontrar”. No entanto, independente de encontrar ou não, você já havia feito isso.

    Recordo com precisão as últimas palavras que te remeti, assim que fui tomada pela mácula:

    “Cansei de fazer isso aqui, pois sequer deveria estar acontecendo.
    Continua a pensar o que quiser de mim.
    Pelo óbvio, me recuso a impugnar as coisas que induziu.
    Acredita no que você quiser.
    Se martiriza por algo que não se é.
    Grita para o mundo o quanto sou podre.
    Conta como fui horrível para você.
    Escancara que o arrependimento da sua vida é ter me conhecido.
    Inventa o que você quiser.
    Já me feriu e me ofendeu o suficiente ter cuspido equivocadamente “n” coisas na minha cara.
    Não estou nem aí quanto a o que os outros vão pensar.
    Faz isso…
    Joga fora o quanto falei, chorei e desabafei no Recanto.
    Joga a minha entrega e intensidade no lixo.
    Joga fora tudo o que viu em mim.
    Joga fora que você me conheceu.
    Faz de mim o seu monstro.
    Faz o que você quiser.
    Me esquece.”

    Me desculpa, teria sido melhor se eu tivesse acatado o silêncio.

    Fiquei incrédula com todo aquele caos. Proferiu palavras horríveis — confesso que percebi a sua dor/desprezo por trás delas — até parecia que um vínculo entre nós jamais havia existido. Falou com quem nunca me conheceu.

    Sabe. Não sei o que estamos fazendo. Não sei onde chegaremos. Estamos somente revivendo algo doloroso. Tenho medo do seu intuito hoje, assim como foi o meu na noite de lucidez, acabar por só inflamar tudo. Já passamos. Á época eu cansei de dar explicações para alguém que se recusava a ouvir. Isso não mudou. Sempre estive e permaneço com a minha consciência tranquila.

    Não importa o transcurso do tempo. Nada que eu diga vai mudar sua visão. E nada vai apagar você me vê e me rotular daquela forma.

    Jamais te julgaria por sentir se frustrado quanto ao episódio. Tanto que eu mesma me desculpei pela parte que reconheci que poderia ter evitado. Me desculpei justamente pensando em não afetar a nossa coisa, por não querer te causa qualquer sentimento ruim, por não querer apagar as luzes da nossa cidade.

    Mas, à época eu não iria, tão menos agora, “confessar” algo que não é verdade. Claro, se eu visse da sua forma, se aquela atrocidade que alegou fosse a realidade, lógico que teria um problema. Vimos de forma diferente e você ignorou o contexto e, horrivelmente, quem sou.

    Reconheço que, à época, quando caiu em si e notou que a cidade já havia se desfeito, procurou incansavelmente por um mecanismo de burlar o tempo. Você desejava encontra-la, sabia que ela havia existido em algum lugar no tempo. Sabia que o “nós”, tão menos o “eu e você”, não se tratou de um delírio.

    Não fomos os únicos a notar o perecimento da cidade. Todo aquele caos suscitou reflexos. Fatores alheios a nós, ainda que horrivelmente atrelados a mim, contra a minha vontade, desprezivelmente atingiram a ti. Aliás, os quais tomei conhecimento somente quando você já estava despedaçado.

    Não faz ideia do quanto foi árduo reconhecer que sangrou por golpes quais eu sequer via que estavam sendo desferidos. Não bastasse, quando os percebi, fui incapaz de cessá-los. Em proteção do meu eu devastado, feriam o meu mais insano e desmedido amor. Não importava o quanto eu implorasse. Me vi de mãos atadas. Foi horrível conviver com a gana em querer contornar todo o imbróglio enquanto era cerceada.

    Aliás, confesso que quanto a isso, tive medo. Pois, naquela noite, justamente tentando cozer a ruptura, acabamos por agravar ainda mais a cisão. Tive receio que os reflexos dilacerassem a nós dois — se é que isso era possível. Eu não sabia como nos salvar. Desculpa.

    Desculpa. Desprezei o que sentia e o que havia se desfeito, não embarquei contigo na jornada, recusei a viagem no tempo e eu sabia que você, sozinho, jamais poderia encontrar, resgatar, sequer reerguer, a nossa cidade.

    Sabe, não quis ser hipócrita. Lamentavelmente, estava convicta de que qualquer conduta comissiva minha somente iria unir os resquícios de poeira daquele caos, gerando um explosivo que de um instante a outro iria eclodir.

    Em razão de tanto, fiz algo que destoa completamente da minha maneira de lidar com as situações. Nada. Permaneci inerte. Não fiz absolutamente nada. Me limitei a implorar ao Universo e ao tempo para tudo aquilo se acalentar. Isso me destruiu.

    Foi duro tomar essa decisão. Senti que havia renunciado a nós. Me vi uma fracassada. Os dias corriam e não foram poucas as vezes que pensei em voltar atrás, tomada pelo pensamento repentino de “Tenta, mais uma vez. Por amor. Antes tarde do que nunca.” caçava e matutava meios de estancar o sangramento. Sobretudo, a minha hemorragia.

    As estações mudaram e, aparentemente, o Universo havia catado as minhas preces. A monotonia da vida em meu entorno prosseguia, como se o caos jamais tivesse existido. No entanto, ainda que diante da pacatisse dos meus dias, não havia um templo em mim.

    Não faz ideia do tormento em meu interior. Sabe, naquela noite, você me condenou ao inferno e vivi torturosos dias nele. Todos os dias revivendo o mesmo epilogo. O caos. Em momento algum fechei os olhos.

    Ouvi todos os dias uma centena de vezes suas alegações daquela noite. Reprisei com atenção cada cena. Refiz cada um dos meus passos e cassei em cada minúcia motins que pudessem atrair para mim o peso e a culpa (em sentido amplo) daquele atrito.

    Fiz isso por mais de uma estação. Aliás, continuei a fazer enquanto você já havia virado a página. Durante meses fiquei atordoada com a ideia de que a “noite de lucidez” ao invés de renovar o suporte do nosso sentir, esfarelou os nossos sentimentos.

    Assumo para mim mesma que eu busquei, desesperadamente, por semanas, um pretexto para embasar a minha vontade em abandonar a inercia e agir na tentativa de salvaguardar ao menos o “eu e você”, mas não encontrei . E isso me destruiu ainda mais, pois, apesar de tudo, eu havia guardado cada fragmento do meu sentimento esfarelado.

    Eu desejei estar completamente equivocada e errada só para ter uma justificativa em te implorar para permanecer ao meu lado. Mais uma vez, trazer o peso de uma faceta ainda mais densa da ruptura para mim. Mais um fardo para carregar e me tortura por sei lá quanto tempo. Sobretudo, mais um motim para me arrastar de volta para você. Para buscar em algum lugar no tempo a nossa cidade.

    Foram inúmeras as noites em que queimei em intensidade jogando fora o ocorrido e desejando você. Sóbria, questionava baixinho a mim mesma que se você fosse um serial killer, então o que de pior poderia acontecer com uma garota que já estava machucada? E que se você realmente fosse atroz como ouvia dizer, eu só podia estar amaldiçoada. Insano, não é? Exatamente assim, ao decorrer de cada frenesi, ao fundo se podia ouvir “Happiness Is a Butterfly — Lana Del Rey”.

    Felizmente, ainda que em devaneios de amor, eu seria capaz de qualquer coisa, exceto aquilo. Você desejava, no mínimo, um espécie de “confissão” do crime que me imputava, juntamente com um pedido de perdão. Desculpa. Meu mais insano e desmedido amor, jamais faria tal coisa para resgatar algo que, notadamente, estava fadado ao fracasso e desapareceu em algum lugar no tempo. Jamais iria me vestir da desprezível versão que criou de mim naquela noite somente para te fazer permanecer aqui. Jamais trairia a mim mesma dessa maneira.

    Por isso, eu prometi. Prometi a mim mesma que nunca qualquer pessoa iria apontar o dedo na minha cara e me fazer desprezível, a ponto de quase cogitar me difamar. Prometi não admitir ser acusada de coisas que eu jamais faria. Nunca mais ser vista como alguém sem valores.

    Nunca mais quero ouvir alguém quem eu amo descaracterizar o meu eu. Horrível o outro falar de você como se fosse imunda. Mais horrível ainda isso vir de alguém por quem você sente o mundo. Não quero, novamente, ser magoada dessa forma.

    Não bastasse, ainda há outra parte na dor. Odeio perceber que sempre vai usar quem eu fui com você e generalizar que sou ou serei assim com qualquer pessoa. É horrível te ver normalizando e desprezando a minha entrega, o meu sentir, o que me rasgava o peito.

    É um imenso pesar notar que tudo de mais puro, profundo, belo e imenso que pulsava em mim por ti, ao final, me renderam uma incrível e desmedida decepção com o seu “eu”.

    Sabe… depois que o alvo do meu amor apontou o dedo na minha cara, induziu uma série de absurdos e equivocadamente me fez imunda, quando nunca fui digna de qualquer daqueles insultos, eu já não espero mais nada.

    Forte, não é?

    Aliás, depois de um tempo considerável eu entendi que não vemos as coisas como são. Vemos como somos. E isso explica muito.

    Você não é um homem atroz. Não construí uma imagem desprezível sua para me polpar de sentir qualquer remorço, culpa ou arrependimento. As minhas desculpas naquela noite não foram vazias. Ainda se trata do homem com quem construí uma cidade. Reconheço que o advento foi movido por sentimentos e sensações efêmeras, de ambos.

    No entanto, ainda assim, acredito que me deva desculpas pelo epilogo de desprazer.

    Sabe, você dizia não conhecer, sempre duvidei. Mas, agora, tenho convicção de que jamais ouvira Paralamas do Sucesso. Príncipalmente, “Cuide bem do Seu Amor”.

    Não foram palavra minhas, ditas em voz de veludo, que destruíram o amor.

    Janaina Couto ©
    [Publicado — 2020]

    @janacoutoj

  • [Poema] LEMBRAR

    Todas as vezes que ouvir “Os Outros”
    ou até mesmo “Onde Anda Você”.

    Todas as vezes que alguém pronunciar aquela frase
    ou quando outro alguém me fitar daquela forma.

    Todas as vezes receber um largo sorriso malicioso como o teu
    ou quando outros lábios tocarem os meus.

    Todas as vezes que sentir aquela mesma euforia
    ou quando me deparar com aquela cena.

    Todas as vezes que me tocarem da sua forma
    ou quando tocar aquela a sua canção.

    Todas as vezes que atravessar aquela esquina
    ou descansar no banco marfim daquela praça.

    Todas as vezes que acariciarem a minha nuca
    ou quando me ver no envolto de um longo abraço apertado.

    Todas as vezes que ouvir um timbre próximo ao seu
    ou quando sem mais nem menos me ver diante de ti.

    Todas as vezes que ler aquele poema…

    Todas as vezes que ouvir “Vento no Litoral”…

    Todas as vezes que chegar aquela estação…

    Todas as vezes que uma brisa invadir a janela do meu quarto numa madrugada de verão…

    Todas as vezes que numa quente madrugada contemplar o mar…

    Todas as vezes que um olhar fixo e profundo fizer o meu corpo arrepiar…

    Todas as vezes que a brisa deixar em mim o cheiro de mar…

    Sempre que lembrar daquele verão.
    Vou lembrar de momentos simples com você.

    E vou amar você, novamente, da mesmíssima forma,
    nem que seja por míseros instantes.

    Sei que sorrir ao lembrar de como os dias daquele verão foram ainda mais quentes com você.

    E, nesses instantes, apenas nesse momento, desejarei intensamente reviver tudo.

    Depois?

    Provavelmente os meus olhos ficarão acinzentados e serenos, quem sabe, até mesmo trêmulos…

    quando me der conta de que o seu amor não mais me pertence e nem o meu a você.


    Janaina Couto ©
    [Publicado — 2019]

    @janacoutoj

  • [Poema] RESPIRAR

    domingo de outono
    árvores curvas
    folhas ainda quentes
    manhã luminosa
    cores quentes
    olhos semicerrados
    é forte, incandescente

    numa travessia
    qualquer um percebia
    a calmaria da vida

    poças de água
    a beira das calçadas
    refletem o musgo verde
    árvores de copas altas
    circundam o quarteirão

    apesar de todo o movimento
    da vida ao redor
    ali, naquele cantinho
    o tempo estava estagnado
    os microsegundos
    exalam insana alegria
    mas, donde vinha?

    centenas de feixes de luz
    atravessam os ipês
    atingem - me em cheio
    aquecem a minha face
    me fazendo sentir parte
    de toda exuberância
    instante atemporal
    plenitude surreal

    a leve brisa quente
    esvoaça meu cabelo
    emaranhado
    traz consigo
    o cheiro de relva
    e a imensa sensação
    pertencimento

    sento-me ao chão
    escoro na árvore
    de copa iluminada
    dona de uma enorme sombra
    alta, envelhecida,
    coberta de musgo,
    mas, 
    ainda assim,
    viva
    ela vive

    me vejo pequena
    diante da grandeza do meu envolto
    mas, ainda assim
    faço parte disso
    e a vida me pertence
    eu a sinto
    eu vivo

    a dádiva elucidada
    diante dos meus olhos
    a tenho
    felizmente,
    a tenho
    sinto a plenitude do viver

    o peso do mundo
    das minhas costas
    se esvai
    carga que eu criara
    naquele triz
    os meus problemas
    tão insignificantes
    coisas minuciosas
    que me faziam escrava
    sobreviver
    ao invés de viver
    como não pude perceber?
    a grandiosidade
    do viver
    do sentir
    do ser

    é perspicaz?
    sigo a observar
    o tranquilo bairro
    no calor escaldante
    vislumbrando o verde
    minha visão deturpada
    ondulatória
    a luz intensa
    a deixa trêmula

    não estou torpe,
    talvez em transe?

    uma buzina na esquina
    cessa a calmaria
    jovens transitam
    apressados
    pobres escravos
    do tempo...

    exceto eu
    não passo pela vida
    nem ela por mim
    caminha comigo
    me pertence
    eu a sinto
    eu a vivo


    Janaina Couto ©
    [Publicado - 2019]

    @janacoutoj

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